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sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Reconhecer resultado eleitoral não é mera formalidade
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Bolsista Fapesp), com período sanduíche na Universidade da Califórnia - San Diego (Bepe/ Fapesp). Mestre em Ciência Política também pela Unicamp, onde se graduou em Ciências Sociais, com habilitação na área de Ciência Política. Professor Assistente no Curso de Licenciatura em Ciências Sociais no Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP-UFPI).
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Nova direita e neoconservadorismo no Brasil
Escrito por Flavia Mendes
Nova
direita e neoconservadorismo no Brasil
Os últimos anos
no Brasil trouxeram à tona uma direita diferente da direita tradicional, o que
tem sido chamado de nova direita. A direita tradicional pós-redemocratização e
Constituição atuava dentro dos marcos do pacto de 1988. Um pacto democrático
apoiado na Constituição, que tem substrato progressista. Essa direita
tradicional, por exemplo, compreendia o regime de presidencialismo de
coalizão – necessidade de construir
maiorias parlamentares para governar –, eleições, divisão dos poderes e todo um
aparato institucional da democracia liberal estabelecida por aqui. A direta
tradicional não rompia com o pacto. A nova direita ao contrário, visa romper.
Ela quer substituir o substrato progressista por um substrato
conservador, radical e também romper com o livre mercado (ROCHA, 2021).
Neoliberalismo é pouco, defendem a privatização de tudo.
O crescimento
dessa nova direita, também chamada de extrema direita, não aconteceu apenas por
aqui. Camila Rocha (2021) no excelente livro “Menos Marx, mais Mises: liberalismo
e a nova direita no Brasil” afirma que a nova direita já vinha se
organizando desde 2005 na antiga rede social Orkut após os escândalos do
Mensalão no primeiro mandato do ex-presidente Lula. As pessoas que já se
conectavam e trocavam experiências, textos e referências, não se viam
representadas pela direita tradicional. Acontecimentos dos últimos anos somados
a dificuldade dessa direita em encontrar um candidato capaz de vencer às
eleições e o antipetismo, fizeram esse grupo apoiar Jair Bolsonaro na última
eleição presidencial. Vale observar que a nova direita é uma força política –
atores, organizações, políticos – mas é diferente e anterior ao bolsonarismo.
No Brasil, entre os anos de 2013 e 2016 inúmeras manifestações levaram para as
ruas novos atores, bem diferentes daqueles que majoritariamente ocupavam esses
espaços desde a redemocratização na década de 1980. Manifestantes que se
identificavam com posições de centro e de direita passaram a ir às ruas,
levando para o espaço público, novas cores, novas demandas, novas bandeiras,
nova estética e, inclusive, alterando os espaços onde historicamente as
manifestações aconteciam nas grandes cidades do país.
Os desdobramentos
das manifestações que encheram as ruas de diversas cidades do Brasil e que também
mobilizaram forte apoio nas redes sociais, com novos protagonistas no novo
cenário político que se desenhou e permitiu o crescimento dessa direita que
pegou alguns de surpresa, mas já se organizava desde os primeiros anos do
governo PT, levaram Jair Messias Bolsonaro a presidência da República. Com
discurso extremamente autoritário, uniu na campanha de 2018 conservadorismo e
neoliberalismo.
O bolsonarismo, que teve
início em 2014 e 2015, se apoiou em outro fenômeno político, cuja trajetória
remonta a quase quinze anos: o surgimento de uma nova direita brasileira. Ao
contrário da direita envergonhada atuante no país desde a redemocratização,
pautada em uma defesa algo hesitante do livre mercado e em um conservadorismo
difuso, a nova direita não tem nenhuma vergonha de se afirmar como tal.
Unificada em torno do combate ao que considera ser uma “hegemonia cultural
esquerdista” que teria passado a vigorar desde a redemocratização, age em
defesa de uma combinação de radicalismo de mercado e conservadorismo programático
e visa romper com o pacto democrático de 1988. (ROCHA, 2021, p. 9).
Uma importante característica dessa nova direita que
chegou ao poder e teve grande ascensão desde as manifestações de 2013, é a
união entre liberalismo e conservadorismo, ou, o que tem sido chamado pela
literatura de neoconservadorismo, que é uma organização intelectual que surgiu
nos Estados Unidos na década de 1970, período da Guerra fria, e une
libertarianismo econômico, tradicionalismo moral e anticomunismo. Enquanto movimento
político se organizaram e chegaram ao poder em 1981 (LACERDA, 2019). Como o
próprio nome já informa, o neoconservadorismo é um ideal ou movimento
conservador e de direita, “sua peculiaridade reside na centralidade que atribui
às questões relativas à família, à sexualidade, à reprodução e aos valores
cristãos” (LACERDA, 2019, p. 29). Características importantes do novo
conservadorismo é a relação com neoliberalismo, militarismo, punitivismo,
anticomunismo e o sionismo. O discurso a favor da família, e contra uma suposta
desordem moral, que seria resultado da agenda de igualdade de gênero que teve
avanço nos últimos anos, é chave para este movimento. A partir dos anos 1970
houve a união entre um ultraliberalismo e o conservadorismo que questiona os
direitos das mulheres e da população LGBTQIA+, defende a religião como fonte de
autoridade política e fere princípios do Estado de direito, da democracia e do
sistema internacional de direitos humanos.
A união entre liberalismo e conservadorismo religioso foi
a base do programa político de Jair Bolsonaro na eleição de 2018. Ele
apresentou uma agenda ultraliberal com o Ministro Paulo Guedes a frente do
Ministério da economia e uma agenda com inúmeras pautas morais que teve apoio
principalmente da bancada evangélica, mas também de outros grupos religiosos e
conservadores do país (FERREIRA, 2020).
Em
2018 as eleições mostraram o “potencial de um ativismo conservador que mistura
diferentes temáticas” (BIROLI, 2019, p. 12) mas que convergem contra os
direitos humanos e, principalmente, o que chamam de ideologia de gênero. O que
muita gente não levou a sério e foi classificado como cortina de fumaça foi a
estratégia de campanha.
O ativismo pró-famíla patriarcal
brasileiro é, tal qual o movimento neoconservador estadunidense, protagonizado
por evangélicos, com participação relevante de católicos – nosso equivalente da
direita cristã. Os argumentos mais frequentes usados na reação pró-família
patriarcal brasileira são religiosos cristãos – depois argumentos jurídicos e
da defesa da família tradicional. O léxico neoconservador está presente: os
valores da maioria cristã devem prevalecer; a família é o principal projeto
para uma sociedade justa e o principal mecanismo para prevenir estupros,
pobreza, gravidez precoce, entre outros males. A família, e não o feminismo,
oferece a segurança que as mulheres querem e de que precisam. (LACERDA, 2019,
p.92/93).
A aliança entre os
liberais e os conservadores que resulta no neoconservadorismo tem uma narrativa
cujo locus é a família. Algumas interpretações compreendem como uma
forma de governo (BIROLI, 2020) não no sentido institucional mas Foucaultiano,
de governamentalidade, de técnicas e procedimentos que vão dirigir as condutas
dos indivíduos e produzir novas formas de subjetividade. (FOUCAULT, 1997).
Atualmente,
a popularidade de Jair Bolsonaro vem caindo a cada pesquisa apresentada. A
crise política, econômica, os efeitos da pandemia e os resultados da CPI tornam
o cenário para a eleição de 2022 difíceis para o atual presidente. No entanto,
o discurso pró-família não desapareceu, já que é um dos pilares do
bolsonarismo. Não a toa, em todos os discursos que fez na ONU Bolsonaro fez
questão de falar da importância da família, e acenar para os seus eleitores,
não se importando com o público que o escutava no evento ou os demais eleitores
brasileiros. Bolsonarismo não é a mesma coisa que a nova direita, mas conseguiu
estabelecer o casamento que garantiu a vitória em 2018 porque para ambos,
direitos humanos e toda uma agenda democrática e feminista não interessa. O
cenário mudou nos últimos anos e ao que parece, embora o Brasil siga sendo um
país conservador, autoritário, misógino, racista e violento, a falta de
emprego, a fome, a inflação e a maneira como o presidente conduziu a pandemia
de COVID-19 serão as principais pautas para a eleição de 2022. O que não
significa que a agenda neoconservadora tenha perdido apoiadores por aqui.
Referências
BIROLI, Flávia; VAGGIONE, Juan Marco; MACHADO, Maria das Dores
Campos (Org.) Gênero, neoconservadorismo e democracia: disputas e
retrocessos na América Latina. São Paulo: Boitempo, 2020.
FERREIRA, Flávia Mendes. Militarização
do ensino e Escola sem partido: uma análise dos discursos de vigilância,
controle e disciplina. Tese (Doutorado em Ciência Política). Universidade
Federal Fluminense, 2020.
FOUCAULT, Michel. Resumo dos cursos do Collège de France
(1970-1982). Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
LACERDA, Marina Basso. O
novo conservadorismo brasileiro: de Reagan a Bolsonaro. Porto Alegre: Zouk,
2019.
PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Amanhã
vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga
para a crise atual. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.
PINTO, Céli regina Jardim. A trajetória discursiva das
manifestações de rua no Brasil(2013-2015). In: SOLANO, Esther; ROCHA, Camila
(Orgs.) As direitas nas redes e nas ruas:
a crise política no Brasil. 1. ed. São Paulo: Expressão popular, 2019.
ROCHA, Camila. Liberalismo e nova direita no Brasil. Canal
Assembleia de Minas Gerais, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=H2FBB_6PyLIhttps://www.youtube.com/watch?v=H2FBB_6PyLI Acesso em 26 Out. 2021.
ROCHA, Camila. Menos Marx,
mais Mises: O liberalismo e a nova direita no Brasil. 1. ed. São Paulo:
Todavia, 2021.
Doutora em Ciência Política (UFF), professora de sociologia na educação básica. Pesquisa controle, autoritarismo e educação.
terça-feira, 24 de agosto de 2021
A Política com P maiúsculo: a necessidade da conscientização política em nosso cotidiano
Escrito por Thaymara Assis
de Lima (discente extensionista de Ciências Sociais)[i]
Atualmente
abordar sobre política brasileira não é tarefa fácil. Seja despretensiosamente
em uma conversa ou em uma cobertura jornalística ou até mesmo quando se analisa
e estuda a área cientificamente, como no caso da Ciência Política. De modo
geral, pode-se notar como o tema é percebido de forma sensível e às vezes
hostil pela população. A política brasileira sofre um desprestígio acarretado
pela falta de confiança e pela insatisfação popular em relação à classe
política. Dia após dia, observamos o declínio de interesse e motivação na participação
civil. No momento em que o Brasil é marcado por crises, a desvalorização política
é uma ameaça à vida democrática, pois ao perpetuar-se desprezível, a
consequência inevitável é a ignorância com oportunas chances de crescimento no
desinteresse do povo pela política.
Essa
visão calejada sobre o cenário político brasileiro emaranha-se com a
desconfiança nos atores políticos que estão, ou estiveram no poder político do
país, transformando o conflito entre povo e representantes em um conflito com a
própria política. Marco Aurélio Nogueira, em sua obra Em defesa da política
(2001), adverte sobre converter o atrito com os políticos em um horror
especificamente voltado à política, uma atividade inerente ao cidadão:
Sair em defesa da política, portanto, não é algo que se
confunda com a defesa dos políticos ou das instituições que nos governam: é, ao
contrário, uma operação destinada a defender a hipótese da vida comunitária.
Corresponde a necessidade vital de manter abertas as comportas de oxigênio,
para que possamos continuar a respirar (NOGUEIRA,
2001, p.13).
Reavaliar a
descrença que está geralmente presente na opinião política brasileira pode ser
um dos meios para evitar direcionar o atrito na direção errada, observando a origem
dessa decepção. A política em si é um terreno fértil para pensarmos nossos
valores, nossos fundamentos éticos, nossa vida em sociedade e o modo como
administraremos esses setores em nossa vida coletiva, influenciando diretamente
a nossa liberdade individual e, em nossas escolhas pessoais.
Essas
necessidades não deixarão de existir ao se desvalorizar a política e
deslegitimar sua urgência. Pelo contrário, sempre estarão presentes em nossa
comunidade. Utilizar a insatisfação relacionada aos representantes como
justificativa para depreciar a política é um meio eficaz de desprezar o
resguardo dos próprios direitos e liberdade. Compreender a importância da
política e introduzi-la como tema relevante em nosso cotidiano está diretamente
relacionada à escolha de representantes. Repensarmos quem somos na política é
também repensar quem está nos representando diretamente. Parafraseando João
Ubaldo Ribeiro (1998, p. 17), quem está no cerne do poder político nada mais é
do que alguém do nosso próprio meio.
A perspectiva
de que todos os políticos são corruptos e ladrões deve se estender até nossa
comunidade. Para refletirmos já que nossos representantes não são seres de
outro mundo. São do mesmo mundo que nós, ou seja, são doutores, cozinheiros,
gerentes, taxistas e professores.
Se não gostamos do comportamento dos políticos e do
funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto a isso, estamos sendo
políticos: estamos contribuindo para a perpetuação de uma situação política
indesejável ou inaceitável. Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a
situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ação possível,
neste caso, é a Política. (RIBEIRO, 1998, p. 17).
Ao não nos reconhecermos como agentes
políticos, perpetuamos uma atitude de complacência com a corrupção que nos
atormenta como Nação. Cabe ao povo se entender como corpo político, embora não consista
em uma tarefa fácil, principalmente aos mais pobres, que não tendo acesso a
plenas condições de vida e educação, dificilmente se enxergam como parte indispensável
na política do país, não se identificando, não vendo na política o seu lugar.
O cidadão, confuso, entediado com o roteiro e empanturrado
de informações que não consegue decifrar, foge da política. Ou daquilo que
dizem ser política. Os mais pobres permanentemente insatisfeitos com o que têm
e com o que recebem dos governos, do Estado, da comunidade, não encontram
motivos para se interessar pelo jogo político ou para ser leais as instituições
públicas (NOGUEIRA, 2001, p.22).
Se faz
necessário afastar-se de noções enraizadas no senso comum e que dificultam o
diálogo na política. Por isso, é fundamental reconhecer tal necessidade e praticá-la,
levando em consideração que a vida em sociedade exige participação. Afinal,
como entender a importância da cidadania se o próprio indivíduo apresenta uma
postura hostil em relação à política? O reconhecimento da importância da
política envolve a participação do cidadão, que deve de fato entender-se como
cidadão ativo na sociedade, cuja participação vai além do voto sazonal a cada
dois anos.
Entender nosso
papel na busca pela regulação de uma política coesa e que tenha serventia ativa
nos direitos civis e sociais é visualizar nossos deveres e possibilidades de
ação além de meros telespectadores. Consciência é a palavra-chave para o que
estamos tratando. Conscientizarmos que nossa vida privada, individual, se
alinha na consequência da vida social e coletiva. Sobretudo, aqueles que mais
dependem dos serviços públicos, dos programas sociais, governamentais.
A importância
da conscientização política do cidadão deve assumir que não se faz necessário
discutir política apenas quando se há um adversário a combater (CORTELLA, 2010).
A política não existe apenas para contra-atacar ou para nos defender da
corrupção. Precisamos entendê-la como núcleo de nossas decisões de cidadania,
elevarmos o pensar político e nosso dever cívico para implementação de novas
perspectivas e revisão das antigas: “A política seria uma maneira de lançarmos
luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las (JANINE
apud CORTELLA, 2010, p.9)”.
Devolver a
política seu lugar de honra e virtude que um dia a pertenceu, preservar a
participação política nada mais é do que preservar a vida como um todo. Ainda
que estejamos vivendo tempos individualistas, compreender que a preservação
dessa autonomia e liberdade tão almejadas e conquistadas com muito esforço por
nossos antecessores, está intrinsicamente ligada aos
afazeres cívicos e para manutenção das gerações futuras. Faz-se urgente a
necessidade de uma Nação consciente dos seus problemas e responsabilidades,
tendo plena noção de que todas as suas escolhas são atos políticos; seja de
enfrentamento ou abstenção.
Referências Bibliográficas:
CORTELLA, Mario Sergio; RIBEIRO, Renato
Janine. Política: para não ser idiota, 2016.
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Em defesa da política.
São Paulo, 2001.
RIBEIRO, João Ubaldo. Política: quem
manda, porque manda, como manda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
sexta-feira, 30 de julho de 2021
Para além da representação política: a acumulação capitalista e o confinamento da participação política em perspectiva
Escrito por Leonardo Almeida (UNEMAT)[i]
A
partir de uma tomada histórica que considere o desenvolvimento e o crescente
caráter de complexificação que as sociedades e os modelos de democracia
modernas assumem, grande parte do conjunto da teoria política moderna aceita
sem maiores considerações a ideia de que a utilização da democracia direta e de
seus possíveis mecanismos acessórios foram sendo paulatinamente considerados
como inviáveis de serem estabelecidos em poleis
complexas e amplas em seus aspectos territoriais e populacionais. Deste
modo, a representação política termina por ser aceita como o principal
mecanismo para a deliberação dos temas de domínio público no mundo moderno.
Entretanto, a explicação de que o tamanho das populações e dos territórios das
comunidades políticas do mundo moderno e industrial tornam inviáveis quaisquer formas
de participação política diferente da representativa, é um viés explicativo que
simplifica fenômenos que são muito mais amplos e complexos, dado que a inserção
do dispositivo da representação política não foi uma mera decorrência histórica
de um aumento demográfico e/ou da expansão dos territórios.
O
ponto central para o qual apontamos neste contexto é o de não negligenciar os
contatos que as instituições políticas consagradas estabelecem com outras esferas
sociais. Pois, mais do que viabilizar o exercício do poder político em nome da
coletividade em sociedades extensas, numerosas e complexas, o que se verifica é
que o dispositivo da representação política através do método eleitoral possui
uma afinidade eletiva com a amortização das demandas colocadas por este novo
escopo do demos, o qual não é mais
restrito à composição que possuía em períodos de pré-sufrágio, outrora
masculino, adulto, proprietário e livre.
O viés liberal de democracia encontrou na
ideia de representação a maneira com maior eficácia para manter o prisma da
liberdade sobreposto ao da igualdade, dada a preocupação central dos teóricos
clássicos do liberalismo com o direito de propriedade, pois centram a ideia de
liberdade no indivíduo, e com isso coloca em outro plano a dimensão da
igualdade. Ellen Wood, em Democracia
contra capitalismo (2003), traz que a introdução da representação nos
circuitos democráticos não teria sido meramente em razão da impossibilidade de
se exercer a democracia direta em territórios extensos, mas que buscava, de
fato, reduzir a pressão popular nos governos, garantindo, por outro lado, a
presença e a prevalência de interesses originários das elites dominantes.
Quando
da experiência helênica, de fato, apesar da restrição em relação a quem eram os
portadores dos direitos políticos – pois
não existia a perspectiva de inclusão de mulheres, estrangeiros e escravizados,
por exemplo, que resultavam na maior parte da população – quem governava
diretamente era de fato, os que eram entendidos como sendo o povo, os titulares dos direitos
políticos em seu conjunto. Neste contexto, eleições e parlamento são
dispositivos estranhos a esse experimento grego originário e, deste modo,
considerados aristocráticos até, pelo menos, o século XVIII (MIGUEL, 2014).
Resumidamente,
podemos dizer que este modelo de democracia liberal moderna consagra a
democracia, seus valores e obrigações mais elementares confinados ao sistema
político, enquanto entende o mercado e o sistema econômico como se fosse uma zona livre de democracia. Mesmo com esse
mínimo de democracia que se vinculou às instituições políticas consagradas, nas
esferas sociais para além da esfera política, a maioria das formas de sociabilidade
estão marcadas por relações desiguais e autoritárias de privação de direitos
sociais, civis e econômicos básicos, mesmo que ladeadas pela democracia política. Este fenômeno é um
dado que resulta de uma construção fruto da disputa pelo significado do
conceito de democracia em sociedades onde o capitalismo também insurgia, o que
resultou no confinamento dos ideais democráticos ao sistema político, em seus
vieses representativo e eleitoral.
Há fatores de viés econômico externos na
relação entre os países centrais e os periféricos que fazem com que decisões no
centro do capitalismo terminem por ser impostas a países em desenvolvimento,
suplantando decisões tomadas em matéria eleitoral nessas nações. Um exemplo
contemporâneo mais específico é a ideia de autonomia ou independência dos bancos
centrais nacionais. Na Europa, o Banco Central Europeu dita verticalmente as
políticas e regras de austeridade para a maioria dos países do bloco formado
por pequenas economias, em especial as do Leste e do Sul do continente.
Atualmente, então, é possível que um governante eleito esteja pleno de direito,
mas esvaziado de fato, do poder do qual foi investido, já que este tem migrado
fortemente para a esfera econômica, seja antes das eleições, através do
financiamento privado – regulamentado ou não – de campanhas e de partidos
políticos, seja durante os mandatos através de ações de lobby, ou ainda através
do controle e concentração da propriedade dos meios de comunicação. No contexto
brasileiro recente, um Banco Central independente
– tal qual a Emenda Constitucional 95/2016 que impõe um teto de gastos em
especial para a área social como a educação, a saúde e a assistência social por
um período de 20 anos – representa que a política econômica de uma sociedade
deva ser levada à frente com o mínimo de interferências populares ou mesmo do
campo político institucional, ou seja, distante de anseios populares eventualmente
manifestados nas eleições. Desta forma, por mais distorções que a representação
política e o método eleitoral possam provocar, até deste mínimo de democracia o
mercado capitalista contém uma força centrífuga para se esquivar. Dessa
maneira, a economia produz e mantém instituições que viabilizam esse pacto colonial da esfera econômica sobre
o sistema político e sobre o de intensidade já rebaixada, consenso democrático.
Essa
distinção entre política, entendida como o único ente responsável pela defesa e
efetivação dos mecanismos de promoção da igualdade, em oposição ao mercado,
entendido como o campo da promoção da liberdade e isento de responsabilidades
igualitárias é outro grande fosso legado pela teoria liberal ao longo dos
últimos séculos. A diminuição da coesão social, o aumento do ódio de classe, o
racismo, a exacerbação dos nacionalismos e da xenofobia, bem como a emergência
de políticos e de correntes políticas com base nos valores segregacionistas são
resultado desta relação tensa entre democracia e capitalismo. Os mecanismos de
mercado não precisam, em tese, dar conta dos convulsionamentos que provocam em
termos sociais.
Se é verdade que por um lado as eleições livres, universais e iguais contribuíram com determinados avanços específicos, como no caso para o surgimento deste Estado de Bem Estar Social (MARSHALL, 1967), por outro, essa conquista teve por efeito a desmobilização de espaços de luta social fora do campo político, já que toda insatisfação ou satisfação poderia ser exposta através do voto periodicamente, retirando assim, do horizonte de imaginação política dos progressistas do campo democrático, um ordenamento institucional pós-capitalista. E aqui podemos somar às correntes socialistas, também as trabalhistas, as socialdemocratas, as ambientalistas, as feministas etc. Essa isenção de democracia que o mercado e o sistema econômico recebem no capitalismo moderno, portanto, é uma construção que visa permitir, se não ampliar, os fundamentos sobre o qual o sistema está colocado, como o lucro, a propriedade privada e a acumulação de capital. O aprofundamento da democracia neste contexto provoca, de maneira intensa ou mesmo superficial, algum nível de ameaça a estes fundamentos e por isso a intensificação da democracia se configura necessariamente como uma ameaça ao capitalismo moderno, pois que de algum modo ameaçará a lucratividade, a produção da mais-valia, a propriedade individual, a acumulação de um capital cada vez mais financeirizado.
Referências Bibliográficas:
AGUILÓ, A., & ALMEIDA, L. (2021). Teoría de la Democracia de
Boaventura de Sousa Santos: Radicalización y Descolonización Democrática.
In: Utopía Y Praxis Latinoamericana, 27 (94), 256-271.
Disponível em:
https://produccioncientificaluz.org/index.php/utopia/article/view/36123 Acesso
em: 28/07/2021.
MARSHALL, T.H. Cidadania,
classe social e status. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1967.
MEDEIROS, Marcelo. A desigualdade no Brasil é disfuncional para
a democracia. [Entrevista] Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/04/politica/1446611627_268265.html
Acesso em: 22/07/2021.
MIGUEL, L. F. Democracia e representação: territórios em
disputa. 1ª ed. – São Paulo: Editora UNESP, 2014.
WOOD, Ellen. Democracia contra
capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Boitempo, 2003.
[i]
Sociólogo
e Cientista Político. Professor da Universidade do Estado de Mato Grosso
(UNEMAT). Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense
(UFF). Mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ).
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Entre a Política e a Economia: o liberalismo heterodoxo de Schumpeter
Escrito por Ricardo Bruno da Silva Ferreira (UFF)
Nota introdutória: Este texto foi concebido como um material de apoio
para os meus alunos de Ciências Sociais. As reflexões
sobre a atualidade do pensamento político schumpeteriano se estendem para além
da sala de aula e permeiam o debate acadêmico contemporâneo.
Considerado como um dos mais importantes
economistas da primeira metade do século XX, o pensador austríaco Joseph Alois
Schumpeter (1883-1950) se notabilizou não apenas por seus escritos econômicos, como
também ofereceu uma contribuição original para a área de Ciência Política ao
propor uma leitura inovadora sobre as possibilidades da democracia
contemporânea em uma época marcada por uma série de transformações
tecnológicas. Rotular ou mesmo classificar o pensamento schumpeteriano dentre
as principais correntes hegemônicas do pensamento econômico consiste em tarefa
quase impossível. Schumpeter é assim um inclassificável, ou melhor dizendo, é
dono de um liberalismo heterodoxo que se diferencia, por um lado, do
liberalismo clássico, e por outro, da própria Escola Austríaca, que tem como um
dos seus principais expoentes o controverso Friedrich Hayek
(1899-1902).
Dentre as obras
publicadas por Schumpeter ao longo de sua vida estão A natureza e a essência da economia política (1908) e a História da análise econômica (1954).
Contudo, nada supera a notabilidade que o autor conquistou após a publicação do
clássico Capitalismo, Socialismo e
Democracia (1942). Com o fim da Segunda Guerra, em uma época marcada pela crescente
polarização ideológica entre Estados Unidos e União Soviética, Schumpeter
apresenta uma perspectiva incomum ao defender a eficiência do sistema
capitalista e a inevitabilidade histórica do socialismo, sem contudo,
prescindir do avanço das conquistas democráticas da atualidade. De modo nada
convencional, Schumpeter se afasta dos economistas neoclássicos ao contestar o suposto
quadro estacionário do capitalismo indicando a alternância entre fases de expansão
e de retração na economia de mercado.
Nas primeiras décadas do
século XX, a Ciência Econômica passou por uma fase de institucionalização enquanto
área de saber acadêmico. De um modo geral, uma parte considerável das análises do
processo econômico decorriam de modelos matemáticos, em detrimento de
abordagens que faziam uso da linguagem. Compreendida como um domínio
científico, a Economia passou a estudar a realidade a partir da observação, da
construção de hipotéses, do uso do método dedutivo e da própria verificação dos
resultados da pesquisa. Em certa medida, Schumpeter se volta contra a corrente
hegemônica no pensamento econômico ao formular interpretações à respeito do
desenvolvimento capitalista sem se valer de uma metodologia quantitativa. No
período em questão estava em voga no campo liberal a tese de que as forças do
mercado seriam capazes de promover o equilíbro econômico ao atuarem de forma
livre sem qualquer embaraço governamental. Ao contrário do apregoado pelo
ideário liberal, as economias reais viviam passando por sucessivas crises, como
se deu com a queda da bolsa de valores de Nova Iorque no ano de 1929. Para
explicar a ocorrência das crises cíclicas no âmbito da sociedade capitalista,
liberais e marxistas se entrincheiraram em campos antagônicos criando assim
alguns paradigmas justificadores. De um lado, o pensamento marxista atribuía a
ocorrência das crises às contradições intrínsecas do próprio capitalismo, ao
passo que os pensadores liberais as derivavam das constantes
intervenções do Estado na economia. De modo original, Schumpeter argumentava
que a dinâmica da economia capitalista não transcorria de modo linear, mas era
marcada por rupturas e descontinuidades em um processo que culminava em
transformações estruturais. As mudanças do capitalismo tinham como cerne a
inovação, considerada como uma variável endógena do sistema econômico.
Um conceito
paradigmático no âmbito das Ciências Humanas, e particularmente, na área de
Ciências Econômicas, é o conceito de destruição criativa. Ao enfatizar a
importância da inovação tecnológica para o desenvolvimento econômico,
Schumpeter caracterizou o fenômeno da destruição criativa como a capacidade que
o sistema capitalista possui de revolucionar a si próprio, em um processo
ininterrupto, de modo que novas estruturas acabam por substituir
progressivamente estruturas obsoletas: “Esse processo de destruição criativa é
o fato essencial do capitalismo. O capitalismo consiste nesse processo e é nele
que toda empresa capitalista tem de viver”[1].
De modo nada estático, a empresa capitalista sob o olhar do economista
austríaco se renova constantemente em um processo dinâmico ao qual ocorre um
rearranjo na cadeia produtiva. A substituição por novas estruturas abrange
tanto a inovação tecnológica propriamente dita, como também a criação de um bem
ou a qualidade de um bem, ou mesmo a elaboração/atualização de um novo método
produtivo. Para Schumpeter, o processo de destruição criativa se constitui como
uma variável endógena do sistema capitalista capaz de criar não apenas soluções
inteligentes e criativas, mas também problemas decorrentes, como o aumento do
desemprego. Não obstante, o otimismo em relação ao processo de destruição
criativa era tamanho que Schumpeter presumia, sem qualquer base comprobatória,
que o capitalismo levaria à eliminação da pobreza na medida que aumentaria a
renda média e o padrão de vida do cidadão comum.
Contrapondo-se à doutrina clássica, que entendia a Democracia como a
consumação do bem comum através da expressão da vontade geral, Schumpeter segue
em certa medida o corolário proposto pela Teoria das Elites ao defender
realisticamente a democracia como um método político[2].
Nas palavras de Schumpeter, “o método democrático é o sistema institucional
para chegar a decisões políticas, no qual os indivíduos adquirem o poder de
decidir por meio de uma luta competitiva pelo voto do povo”[3].
A partir de uma perspectiva restritiva, o economista austríaco define a
democracia como uma disputa pelo poder em que diversos grupos políticos
concorrem em eleições periódicas e livres tendo em vista a aquisição do voto
popular. As contendas políticas seriam equacionadas pela aceitação das regras
do jogo entre os candidatos e partidos em disputa.
Ao contrário da perspectiva utilitarista de
John Stuart Mill que entendia a democracia como um valor em si, Schumpeter
concebeu a democracia de modo instrumental, ou seja, como um método político. A
democracia se caracterizaria como um certo arranjo institucional utilizado para
se alcançar decisões políticas – legislativas ou administrativas – sem qualquer
valor supremo. Diferente do que pressupôs a teoria clássica, Schumpeter
entendia a democracia mais pelo aspecto concorrencial em torno do voto do que
propriamente por certa concepção centrada na premissa de soberania popular ou
na defesa do sufrágio universal. Em sua principal obra, o autor sustentou que a
democracia nada mais seria do que um método para se tomar decisões, o que não
lhe revestia de um significado maior para além da sua funcionalidade. Schumpeter argumentava
que a democracia se estabelece como um arranjo institucional calcado na livre
competição política de grupos organizados em torno do voto. É preciso salientar
que nem todos concordaram com a definição schumpeteriana de democracia por considerá-la
bastante restritiva, vide Norberto Bobbio[4]
e Raymond Aron[5]. Para
estes autores, a democracia, além de configurar um método político, possuía uma
finalidade intrínseca ao se afirmar no cotidiano da sociedade política como um
bem inegociável.
Referências Bibliográficas:
ARON, Raymond. Novos temas de sociologia contemporânea. Lisboa: Presença, 1964.
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1986.
BOBBIO, Norberto;
MATTEUCI, Nicola; ASQUINO, Gianfranco (Orgs.) Dicionário de Política. Brasília: Editora da Universidade de
Brasília, 1998.
CARNEIRO, Ricardo (Org.). Os clássicos da economia. São Paulo:
Editora Ática, 2008. (Volumes 1 e 2).
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
ROLL, Eric. História das Doutrinas Econômicas. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1977.
SCHUMPETER, Joseph A.. Capitalismo, socialismo e democracia. São Paulo: Editora da Unesp,
2017.
[1]
SCHUMPETER, Joseph A.. Capitalismo,
socialismo e democracia. São Paulo: Editora da Unesp, 2017, p. 120.
[2] BOBBIO, N.; MATTEUCI, N.; ASQUINO, G. (Orgs.) Dicionário de Política.
Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998, p. 325-326.
[3]
SCHUMPETER, Joseph A.. Capitalismo,
socialismo... Op. cit., p. 366.
[4] Cf.
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia:
uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
[5] Cf.
ARON, Raymond. Novos temas de sociologia
contemporânea. Lisboa: Presença, 1964.
Professor Adjunto de Ciência Política e Ensino da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor e Mestre em Ciência Política (UFF). Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (UFF). Pesquisa sobre Teoria Política e Pensamento Político Brasileiro.



