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terça-feira, 24 de agosto de 2021

A Política com P maiúsculo: a necessidade da conscientização política em nosso cotidiano

 

Foto: Pixabay

Escrito por Thaymara Assis de Lima (discente extensionista de Ciências Sociais)[i]

 

Atualmente abordar sobre política brasileira não é tarefa fácil. Seja despretensiosamente em uma conversa ou em uma cobertura jornalística ou até mesmo quando se analisa e estuda a área cientificamente, como no caso da Ciência Política. De modo geral, pode-se notar como o tema é percebido de forma sensível e às vezes hostil pela população. A política brasileira sofre um desprestígio acarretado pela falta de confiança e pela insatisfação popular em relação à classe política. Dia após dia, observamos o declínio de interesse e motivação na participação civil. No momento em que o Brasil é marcado por crises, a desvalorização política é uma ameaça à vida democrática, pois ao perpetuar-se desprezível, a consequência inevitável é a ignorância com oportunas chances de crescimento no desinteresse do povo pela política.

Essa visão calejada sobre o cenário político brasileiro emaranha-se com a desconfiança nos atores políticos que estão, ou estiveram no poder político do país, transformando o conflito entre povo e representantes em um conflito com a própria política. Marco Aurélio Nogueira, em sua obra Em defesa da política (2001), adverte sobre converter o atrito com os políticos em um horror especificamente voltado à política, uma atividade inerente ao cidadão:

 

Sair em defesa da política, portanto, não é algo que se confunda com a defesa dos políticos ou das instituições que nos governam: é, ao contrário, uma operação destinada a defender a hipótese da vida comunitária. Corresponde a necessidade vital de manter abertas as comportas de oxigênio, para que possamos continuar a respirar  (NOGUEIRA, 2001, p.13).

 

Reavaliar a descrença que está geralmente presente na opinião política brasileira pode ser um dos meios para evitar direcionar o atrito na direção errada, observando a origem dessa decepção. A política em si é um terreno fértil para pensarmos nossos valores, nossos fundamentos éticos, nossa vida em sociedade e o modo como administraremos esses setores em nossa vida coletiva, influenciando diretamente a nossa liberdade individual e, em nossas escolhas pessoais.

Essas necessidades não deixarão de existir ao se desvalorizar a política e deslegitimar sua urgência. Pelo contrário, sempre estarão presentes em nossa comunidade. Utilizar a insatisfação relacionada aos representantes como justificativa para depreciar a política é um meio eficaz de desprezar o resguardo dos próprios direitos e liberdade. Compreender a importância da política e introduzi-la como tema relevante em nosso cotidiano está diretamente relacionada à escolha de representantes. Repensarmos quem somos na política é também repensar quem está nos representando diretamente. Parafraseando João Ubaldo Ribeiro (1998, p. 17), quem está no cerne do poder político nada mais é do que alguém do nosso próprio meio.

A perspectiva de que todos os políticos são corruptos e ladrões deve se estender até nossa comunidade. Para refletirmos já que nossos representantes não são seres de outro mundo. São do mesmo mundo que nós, ou seja, são doutores, cozinheiros, gerentes, taxistas e professores.

 

Se não gostamos do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto a isso, estamos sendo políticos: estamos contribuindo para a perpetuação de uma situação política indesejável ou inaceitável. Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ação possível, neste caso, é a Política. (RIBEIRO, 1998, p. 17).

 

 Ao não nos reconhecermos como agentes políticos, perpetuamos uma atitude de complacência com a corrupção que nos atormenta como Nação. Cabe ao povo se entender como corpo político, embora não consista em uma tarefa fácil, principalmente aos mais pobres, que não tendo acesso a plenas condições de vida e educação, dificilmente se enxergam como parte indispensável na política do país, não se identificando, não vendo na política o seu lugar.

 

O cidadão, confuso, entediado com o roteiro e empanturrado de informações que não consegue decifrar, foge da política. Ou daquilo que dizem ser política. Os mais pobres permanentemente insatisfeitos com o que têm e com o que recebem dos governos, do Estado, da comunidade, não encontram motivos para se interessar pelo jogo político ou para ser leais as instituições públicas (NOGUEIRA, 2001, p.22).

 

Se faz necessário afastar-se de noções enraizadas no senso comum e que dificultam o diálogo na política. Por isso, é fundamental reconhecer tal necessidade e praticá-la, levando em consideração que a vida em sociedade exige participação. Afinal, como entender a importância da cidadania se o próprio indivíduo apresenta uma postura hostil em relação à política? O reconhecimento da importância da política envolve a participação do cidadão, que deve de fato entender-se como cidadão ativo na sociedade, cuja participação vai além do voto sazonal a cada dois anos.

Entender nosso papel na busca pela regulação de uma política coesa e que tenha serventia ativa nos direitos civis e sociais é visualizar nossos deveres e possibilidades de ação além de meros telespectadores. Consciência é a palavra-chave para o que estamos tratando. Conscientizarmos que nossa vida privada, individual, se alinha na consequência da vida social e coletiva. Sobretudo, aqueles que mais dependem dos serviços públicos, dos programas sociais, governamentais.

A importância da conscientização política do cidadão deve assumir que não se faz necessário discutir política apenas quando se há um adversário a combater (CORTELLA, 2010). A política não existe apenas para contra-atacar ou para nos defender da corrupção. Precisamos entendê-la como núcleo de nossas decisões de cidadania, elevarmos o pensar político e nosso dever cívico para implementação de novas perspectivas e revisão das antigas: “A política seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las (JANINE apud CORTELLA, 2010, p.9)”.

Devolver a política seu lugar de honra e virtude que um dia a pertenceu, preservar a participação política nada mais é do que preservar a vida como um todo. Ainda que estejamos vivendo tempos individualistas, compreender que a preservação dessa autonomia e liberdade tão almejadas e conquistadas com muito esforço por nossos antecessores, está intrinsicamente ligada aos afazeres cívicos e para manutenção das gerações futuras. Faz-se urgente a necessidade de uma Nação consciente dos seus problemas e responsabilidades, tendo plena noção de que todas as suas escolhas são atos políticos; seja de enfrentamento ou abstenção.

 

Referências Bibliográficas:

CORTELLA, Mario Sergio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: para não ser idiota, 2016.

NOGUEIRA, Marco Aurélio. Em defesa da política. São Paulo, 2001.

RIBEIRO, João Ubaldo. Política: quem manda, porque manda, como manda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

 



[i] Artigo supervisionado pelos professores Ricardo Bruno Ferreira (UFF) e Mariele Troiano (UFF).

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Bolsonaro: o presidente sem partido

 Vitor Vasquez (Doutor em Ciência Política pela Unicamp)

Henrique Curi (Doutorando em Ciência Política pela Unicamp)

 

Fonte: Folha de São Paulo, Ricardo Borges/Folhapress.

 

Já no final de 2019, no seu primeiro ano de mandato, o presidente Jair Bolsonaro deixou o partido pelo qual foi eleito, o PSL. Na ocasião, após uma série de desentendimentos com o presidente da sigla, Luciano Bivar, Bolsonaro anunciou que sairia e criaria um novo partido, o Aliança pelo Brasil. No entanto, a tentativa fracassou e, fato é que, já estamos em 2021 e Bolsonaro segue sem partido. Mas o que significa um país ser liderado por um presidente sem partido? Traremos alguns apontamentos para responder esta questão a partir da importância partidária, para políticos e eleitores, tendo em vista seus três principais eixos institucionais: governamental; em sua relação com militantes e eleitores e; organizacional (Katz e Mair, 1993).

Para começar, vale relembrar rapidamente a vida partidária de Jair Bolsonaro. O político já atuou por oito siglas até aqui. Cronologicamente, foram os seguintes partidos: PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL. Porém, para sermos justos, destacamos que o PDC se fundiu com o PDS para a criação do PPR que, por sua vez, se fundiu com o PP para criar o PPB. Ou seja, se considerarmos a origem comum de PDC, PPR e PPB, Bolsonaro atuou “apenas” por seis siglas distintas. Nosso ponto, aqui, é que o uso utilitarista do partido feito pelo atual presidente do Brasil não chega a ser novidade. Pelo contrário, marcou a sua carreira política até então. O que muda é o status de seu cargo e a sua atual condição partidária. Se antes Bolsonaro ocupava cargos legislativos e migrava de partido, hoje ocupa o principal posto eleitoral do país e está sem partido.

Isto se reflete no uso utilitário que Bolsonaro fez de cada partido em cada momento. Ao ocupar os cargos de vereador e deputado, o político necessitava dos partidos, seja para participar das disputas, seja para atuar no Legislativo. Porém, para concorrer à presidência e, posteriormente, exercer a sua função, Bolsonaro só precisava de um partido para chamar de seu, pois, neste caso, ele centralizou a eleição e o governo em torno de sua figura, transformando decisões eleitorais e governativas em ações personalistas.

Do ponto de vista organizacional, os partidos políticos são responsáveis pela seleção das candidaturas que serão ofertadas aos eleitores. Especialmente no Brasil onde, para disputar uma eleição, um político precisa obrigatoriamente estar filiado a algum partido. Neste processo, a definição do candidato é anterior ao período eleitoral e, em geral, reflete a preferência dos grupos intrapartidários de maior força (Katz, 2001). Consequentemente, o nome a ser escolhido possui ideais próximos a essa elite, ou pelo menos representa seus principais objetivos.

Nesse sentido, o caso do atual presidente é simbólico, já que conforma um processo contrário ao que usualmente se espera quando pensamos na relação partido-candidato: dado seu potencial eleitoral em 2018, diversos partidos disputaram a filiação de Bolsonaro. Portanto, na relação Bolsonaro e PSL a dinâmica partidária de seleção de candidato se inverteu sendo que, desta vez, foi o candidato que escolheu a sua elite. Ao fazê-lo, ele se sobrepôs ao grupo intrapartidário dominante, sendo, inclusive, esta condição, de perfil autoritário, necessária para aceitar a filiação.

As consequências para a sigla foram variadas. Por um lado, um proeminente grupo intrapartidário do PSL, denominado “Livres”, abandonou o partido por conta da candidatura. Por outro, na esteira de Bolsonaro, o partido elegeu três governos estaduais (RO, RR e SC), além da segunda maior bancada da Câmara (53 deputados federais). Apesar desse sucesso eleitoral estrondoso, como Bolsonaro nunca se preocupou em construir a legenda de maneira coletiva e democrática, não hesitou em abandonar o barco após o primeiro desentendimento interno.

Ao agir desta forma, Bolsonaro estendeu o seu personalismo eleitoral para o governo. Assim, seus eleitores e simpatizantes alimentam um vínculo parte ligado às ideias que defende e representa, mas parte vinculada à própria figura do presidente. Não à toa o político é conhecido por seus apoiadores como “mito” e ele mesmo nutre esta condição. A atuação personalista e descolada da imagem de um partido contorna a função partidária de realizar o elo entre políticos e eleitores, pois a relação que Bolsonaro estabelece é direta (Worsley, 1973).

Sabemos que esta função partidária no Brasil é deficitária. O elevado número de partidos, a baixa identificação partidária, as altas taxas de migração e a avaliação ruim que os partidos possuem perante a população tornam a relação entre partidos e eleitores algo potencialmente frágil no país. No entanto, no caso Bolsonaro esta relação não é frágil, ela simplesmente não existe. Isto torna difícil a tarefa de associar Bolsonaro a alguma elite política, fortalecendo a sua narrativa de praticante da nova política, apesar de estar na vida pública eletiva desde o final dos anos 1980.

Isto, finalmente, nos leva ao terceiro eixo institucional dos partidos: o partido no governo. Ao propor uma nova política, Bolsonaro assegurou aos seus eleitores o fim do “toma lá dá cá”, que seria o fim da barganha entre cargos políticos – principalmente ministeriais – e apoio legislativo para a agenda governista. A promessa incluía ministros técnicos, especialistas em suas pastas e que exercessem sua função isentos de ideologia. Neste caso, a falta de partido do presidente somada à ausência de uma base fixa de apoio (coalizão de governo) sugerem um desprezo pelo partido político cumprindo uma de suas funções essenciais que é a de governar, tanto no Executivo quanto no Legislativo.

O resultado desta experiência tem sido desastroso. A convivência em um partido político exige, necessariamente, diálogo e construção de ideias com grupos heterogêneos, já que os partidos, ainda que aglutinadores de interesses em comum, são compostos por políticos, militantes e membros de preferências similares, mas não idênticas (Ceron, 2017). O desprezo que o presidente demonstra pelos partidos políticos, na verdade, demonstra o desprezo por normas mínimas que uma democracia exige.

Preterindo as instituições partidárias, Bolsonaro provoca confusão em eleitores, adversários e até interlocutores. Do ponto de vista da organização, o presidente inverte a ordem ao leiloar a sua candidatura pelo preço máximo: controle completo da legenda. Agindo no governo de forma “independente”, não consegue coordenar minimamente o planejamento e execução de uma agenda. Ao mesmo tempo, justamente em razão desta independência, lava as suas mãos, terceirizando a culpa de fracassos por má gestão aos demais entes federativos (estados e municípios), por não aprovação de leis para outros Poderes (Legislativo e Judiciário) ou até mesmo para os ministros, como no caso da pasta da Saúde, que já está em seu quarto ocupante em plena pandemia de Covid-19. Esta negação dos partidos faz com que Bolsonaro se desvie da culpa, pelo menos perante seus seguidores mais radicais, sendo que, em última instância, é ele o chefe do Executivo e responsável direto pelas ações do governo.

O mais grave é que a estratégia para 2022 se repete. A candidatura de Bolsonaro está em disputa e pelo menos sete partidos já foram ventilados como possível nova casa do presidente: Progressistas, PTB, PR, PRTB, DC, PMB (recém nomeado Brasil 35) e o próprio PSL. Ou seja, corremos mais uma vez o risco de sermos governados por um presidente que deseja o seu partido apenas para disputar eleição, pois, almeja mesmo é governar, do seu jeito, o seu país. O resultado desse personalismo autoritário e exacerbado, somado a falta de diálogo e a coordenação com preferências distintas da do próprio presidente nós já sabemos – da pior forma possível – qual é.

Referências Bibliográficas

CERON, A. “Intra-party politics in 140 characters”. Party Politics, v. 23, n. 1, p. 7-17, 2017.

KATZ, R. “The Problem of Candidate Selection and Models of Party Democracy”, Party Politics, v. 7, n. 3, p. 277–96, 2001.

KATZ, R.; MAIR, P. “The evolution of party organizations in Europe: the three faces of party organization”. American Review of Politics, vol. 14, p. 593-617, 1993.

WORSLEY, P. “O conceito de populismo”. In: TABAK, F. (org.). Ideologias – populismo. Rio de Janeiro: Eldorado. 1973.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Algumas considerações sobre fake news e as eleições municipais de 2020

 



 

As fake news são notícias falsas disseminadas em meios de comunicação com a intenção de chamar a atenção, desinformar e obter vantagens (BRAGA, 2018), atingindo e difamando a imagem de algo, de alguém ou de um grupo de pessoas, ou mesmo de um pensamento. É notório que a disseminação dessas notícias falsas se intensifica no período eleitoral. Sabemos que este tipo de prática é facilmente espalhado pelas mídias digitais, como foi possível atestar no processo eleitoral brasileiro de 2018.

O fenômeno das fake news vem crescendo e alguns de seus exemplos vêm se tornando plataforma política, como demonstram algumas figuras públicas, certos políticos e criadores de conteúdo em meios digitais (como o Youtube). Isso pode afetar disputas e resultados eleitorais e impactar princípios democráticos, como vem sugerindo especialistas de várias áreas do conhecimento acerca, por exemplo, das eleições presidenciais de 2016 que resultaram na vitória de Donald Trump (nos Estados Unidos) e das eleições de 2018 no Brasil [1]. Em pelo menos seis ações judiciais no Tribunal Superior Eleitoral - TSE, a chapa formada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e o vice, Hamilton Mourão, esteve envolvida no compartilhamento em massa de disparos de mensagens via WhatsApp e na difusão de notícias falsas durante o processo eleitoral de 2018 [2].

Se nesse período as campanhas eleitorais ocorreram vultosamente através do meio digital, nas eleições de 2020 elas foram ainda mais intensas, já que, além da consolidação do uso das redes sociais como busca de informação popular, a pandemia ocasionada com o novo Corona Vírus limitou certos eventos de campanha eleitoral que promoviam aglomerações.

É possível afirmar que, após essas experiências eleitorais e uma pressão da sociedade civil sobre o combate às fake news, vem crescendo a maior atenção ao fenômeno, tanto por parte de estudiosos de diversas áreas (por exemplo, Ciência Política, Antropologia, História, Linguística, Comunicação, Psicologia, Neurociências, Direito etc), como vindo das instituições democráticas e estatais, tais como o Poder Legislativo, ou o Judiciário (com novos protocolos vindos do TSE).

Em 2020, a Justiça Eleitoral desenvolveu e aperfeiçoou mecanismos de combate a essas desordens informativas disseminadas em redes sociais e em ferramentas de troca de mensagens, investindo em propagandas e campanhas de fiscalização e combate a estas notícias falsas nos meios de comunicação (como o rádio e a televisão) e em plataformas digitais. Além disso, promoveu cursos para servidores dos Tribunais Regionais, com a participação das plataformas Facebook, Instagram e WhatsApp, que aderiram ao Programa de Enfrentamento à Desinformação com Foco nas Eleições 2020 do TSE [3].

Este ano, os eleitores tiveram a sua disposição pelo menos três meios para denunciar irregularidades como as notícias falsas. As denúncias puderam ser registradas no Pardal, ou encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e às Ouvidorias da Justiça Eleitoral. O Pardal é um aplicativo desenvolvido para este tipo de informação, onde o cidadão, após baixar a ferramenta, pode fazer fotos ou vídeos e enviá-los para a Justiça Eleitoral. De acordo com a localidade da denúncia, a interface web disponibilizada nos sites dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) permite que estes acompanhem e analisem as denúncias. 

 

 “Entre as situações que podem ser denunciadas, estão o registro de uma propaganda irregular, como a existência de um outdoor de candidato – o que é proibido pela legislação –, e a participação de algum funcionário público em um ato de campanha durante o horário de expediente. Para este ano, foram implantadas algumas novidades, como a disponibilização de um link específico para que o denunciante possa registrar as denúncias diretamente no Ministério Público Eleitoral de cada unidade da Federação, além de maior rigor na identificação do denunciante”[4].

 


Segundo o site do TSE, só o Whatsapp baniu mais de mil contas no país após denúncias recebidas em seus canais em 2020.  Foram mais de quatro mil e quinhentas denúncias acolhidas no período de 27 de setembro a 15 de novembro neste ano. E estes números podem aumentar, pois o segundo turno ainda nem terminou [5].

Outros atores sociais parecem também ter aprendido com a experiência das eleições passadas e suas fake news. É o caso de figuras políticas que foram alvo destas falsas notícias, como a candidata a prefeita de Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB) e o candidato a prefeito de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), ambos chegando ao segundo turno nestas disputas eleitorais de 2020.

É possível ver uma atitude mais combativa em relação às fake news direcionadas aos candidatos, se comparada com as posturas de suas candidaturas nas eleições de 2018, quando estes participaram do pleito presidencial. Ou mesmo comparando com a candidatura de Fernando Haddad (PT), que disputou o segundo turno com Bolsonaro (PSL) na ocasião.

Mentiras ligando o candidato petista à defesa do incesto, por exemplo, foram compartilhadas por figuras como Olavo de Carvalho no seu canal de Youtube, que realizou uma interpretação distorcida do livro de Haddad, apelando para a revolta de seus seguidores [6]. A candidatura petista lançou uma nota desmentindo a afirmação, que foi compartilhada por alguns veículos midiáticos e ratificada por sites de checagem de notícias que desmentiram a afirmação de Carvalho. A mesma postura foi tomada a partir de outros boatos. A tendência foi seguida por outros candidatos, também alvos de fake news, como Manuela que era a candidata vice de Haddad e Boulos, também candidato a presidente. Contudo, não foram suficientes no que diz respeito à exclusão de vídeos e links com notícias falsas, ou à interrupção dos compartilhamentos em massa.

Os processos judiciais também não causaram o êxito esperado a tempo, além de terem sido escassos, se comparados com o então candidato do PSL, campeão em número de processos acusando oponentes de propagarem fake news (foram 42 ações de Bolsonaro, e 22 de Haddad) [6].

Após o pleito de 2018, Manuela passou a rebater várias fake news criadas contra a sua imagem, desmentindo e apresentando argumentos e provas contrárias às notícias falsas em suas redes sociais. Chegou até a criar conteúdo específico sobre o tema em seu canal de Youtube, com entrevistas e vídeos de respostas. Neste ano, antes do dia da votação do primeiro turno, a candidata conseguiu a remoção de 91 links com mentiras a seu respeito, graças ao ordenamento do TRE-RS (Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul) direcionado ao Facebook, Instagram, Twitter e ao YouTube [8].

Boulos, em 2020, também aderiu à exposição das fake news em suas redes sociais, apresentando esta postura em sua campanha eleitoral, ao dar mais visibilidade ao boato, correndo o risco de levar a mentira até onde ela ainda não havia chegado. No entanto, essa divulgação veio acompanhada de contra argumentações claras e com provas. É possível ver ao longo de sua candidatura em São Paulo vídeos rebatendo fake news relacionadas aos seus pais, ao seu envolvimento no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST e à postura desse movimento social. Ele até mesmo rebate essas acusações diretamente às pessoas nas ruas que, em entrevistas, reproduzem esses boatos.

Estas práticas mostraram-se estratégias de campanha bem sucedidas, pois, ao invés de esconder o boato e deixá-lo às margens, circulando nas bolhas de seus adversários, os candidatos expõem para um número cada vez maior de pessoas aquela informação equivocada atrelada a um contra argumento, expondo e causando desconforto àqueles que reproduziram o conteúdo falacioso.

As medidas e fatos apresentados acima mostram que as chamadas fake news são mais bem combatidas em conjunto, partindo de ações de educação, fiscalização e debate público. Estas medidas contribuíram para um cenário eleitoral com menos desinformação. É o que afirmou o presidente do TSE, o ministro Luís Roberto Barroso, antes da votação do primeiro turno: “Ainda temos dois dias até as eleições. Mas, talvez, nos últimos tempos, esta tenha sido a eleição com menor incidência de notícias fraudulentas” [9].

As eleições de 2020 já apresentaram avanços, mas ainda há muito a se pensar e a fazer para combater e diminuir este mal presente em nosso meio, sobretudo no “tempo da política” (PALMEIRA, GOLDMAN, 1996).

 

[1] Diversos artigos sobre o assunto foram produzidos, (ALLCOTT, GENTZKOW, 2017), (BOVET, MAKSE, 2019), (ARDUINO, MORAES, 2019), (SARLET, SIQUEIRA, 2020), dentre outros.

[2] Matéria “Eleição de 2020 terá mesmos problemas de fake news de 2018, dizem especialistas”, disponivel em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53187041.

[3] Como é possivel ver nas matérias “Facebook, Instagram e WhatsApp participam de curso do TSE sobre combate às fake news nas Eleições 2020” e “TSE faz campanha contra a desinformação: “Se for fake news, não transmita”, disponíveis em https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Setembro/facebook-instagram-e-whatsapp-participam-de-curso-do-tse-sobre-combate-as-fake-news-nas-eleicoes-2020 e https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Julho/tse-faz-campanha-contra-a-desinformacao-201cse-for-fake-news-nao-transmita201d.

[4] “Eleitor conta com vários canais para denunciar fake news e outras irregularidades nas Eleições 2020”, disponível em https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Outubro/eleitor-conta-com-varios-canais-para-denunciar-fake-news-e-outras-irregularidades-nas-eleicoes-2020.

[5] Matéria “WhatsApp bane mais de mil contas no país após denúncias recebidas em canal do TSE”, disponivel em https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Novembro/whatsapp-bane-mais-de-mil-contas-no-pais-apos-denuncias-recebidas-em-canal-do-tse.

[6] “Cinco ‘fake news’ que beneficiaram a candidatura de Bolsonaro”, disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/18/actualidad/1539847547_146583.html.

[7] Segundo matéria “Haddad foi o maior alvo de ações por suspeita de propagar fake news, seguido de Bolsonaro”, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/12/haddad-foi-o-maior-alvo-de-acoes-por-suspeita-de-propagar-fake-news-seguido-de-bolsonaro.shtml.

[8] Ver em “Justiça ordena exclusão de 91 links com mentiras sobre Manuela D'Ávila”, disponível em https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/11/10/justica-redes-sociais-novente-links-fake-news-manuela-davila.htm.

[9] Segundo matéria “Eleições 2020: Barroso aponta 'nível mínimo' de fake news nas campanhas municipais”, disponível em https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2020/noticia/2020/11/13/eleicoes-2020-barroso-aponta-nivel-minimo-de-fake-news-nas-campanhas-municipais.ghtml.

 

BIBLIOGRAFIA

ALLCOTT, Hunt. GENTZKOW, Matthew. Social Media and Fake News in the 2016 Election.  Journal of Economic Perspectives—Volume 31, Number 2—Spring 2017—Pages 211–236.

ARDUINO, Luiz Guilherme de Brito. MORAES, Vânia de.  A Transmissão de fake news como um recurso de propagabilidade durante a campanha eleitoral de 2018. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXIV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Vitória - ES – 03 a 05/06/2019.

BOVET, Alexandre & MAKSE, Hernán. Influence of fake news in Twitter during the 2016 US presidential election. Nature Communications. 2019.

BRAGA, Renê Morais da Costa. A indústria das fakenews e o discurso de ódio. In: PEREIRA, Rodolfo Viana (Org.). Direitos políticos, liberdade de expressão e discurso de ódio: volume I. Belo Horizonte: Instituto para o Desenvolvimento Democrático, 2018. p. 203-220.

PALMEIRA, Moacir. GOLDMAN, Marcio (orgs.). Antropologia, voto e representação política. Rio de Janeiro, Contra Capa, 1996. 

SARLET, Ingo & SIQUEIRA, Andressa. (2020). LIBERDADE DE EXPRESSÃO E SEUS LIMITES NUMA DEMOCRACIA: o caso das assim chamadas “fake news” nas redes sociais em período eleitoral no Brasil. REI - REVISTA ESTUDOS INSTITUCIONAIS. 6. 534-578. 10.21783/rei.v6i2.522.