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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Covid-19 e o capitalismo de desastre

 

   Suellen Correa (doutora em Antropologia pela UFF)


* Foto sem autoria retirada da matéria “Capitalismo, coronavírus e mudança climática”, disponível em https://esquerdaonline.com.br/2020/07/12/capitalismo-coronavirus-e-mudanca-climatica/ (acesso em 12 jul. 2021).

                      

    Em ensaio anterior pude apresentar a discussão acerca da crescente necessidade de reformulação e adequação dos estudos de eventos de riscos (desastres e catástrofes) nas Ciências Sociais a partir da pandemia pelo novo Corona Vírus [1], sendo esta um evento novo para essa área de pesquisa em termos de abrangência, de número de mortes e afetados, além da extensa diversidade de consequências econômicas, sociais, políticas e culturais na atualidade.

    Ao considerar a pandemia da Covid-19 como um evento de desastre – ou de catástrofe (MONTANO; SAVITT, 2020) – é possível tecer algumas relações de semelhança com estes “eventos críticos” (DAS, 1995). A que se procura tratar nesta breve reflexão é a relação dos desastres com oportunidades de crescimento patrimonial para uma pequena parcela da população, além de facilitações ao avanço neoliberal. Esta relação pode estar ligada ao chamado capitalismo de desastre [KLEIN, 2008).

    Segundo o pesquisador português José Manuel Mendes, os eventos de catástrofes “podem ser reveladores da lógica do capitalismo e dos limites do neoliberalismo” (2016, p.4). Ainda que Mendes defenda o estudo do capitalismo enquanto um sistema econômico sem coerência, ou essência inerente - apesar de reconhecê-lo como força de acumulação e de distribuição do capital (ARRIGUI, 2010, apud MENDES, 2016, p.4) – para o sociólogo é possível apreender uma lógica subjacente aos desastres, ao analisar as “configurações que o capitalismo assume nos contextos específicos onde opera, e a sua relação complexa com as formas de Estado, as culturas e as sociedades que encontra” (MENDES, 2016, p. 4-5). Tomando essa perspectiva, a lógica da acumulação foi (e está sendo) um dos fatores descortinados nesta pandemia. Alguns exemplos apresentam como este tipo de crise sanitária é apropriado pelo capitalismo de desastre.

    Uma amostra que ilustra a questão é apresentada por Naomi Klein, ao problematizar como o neoliberalismo e o capitalismo esticam seus limites e suas operações em contextos de choque e de crise [2]. A jornalista canadense lembra das tentativas de resgates corporativos sem restrições e regulação, tomando como justificativa a crise da Covid-19, que foram exploradas pelo governo Trump e por outros ao redor do mundo (2020).

    Outro exemplo vem da Índia que, apesar de ter sido um dos países que mais sofreu com mortes e a crise econômica pelo novo Corona Vírus, viu as fortunas dos indianos mais ricos dispararem dezenas de bilhões de dólares, segundo levantamento [3].

    Recentemente não só a fortuna de uns aumentou como outros passaram a fazer parte do grupo dos mais ricos. Segundo o relatório Global Wealth Report 2021 - elaborado anualmente pelo banco Credit Suisse - o mundo terminou 2020 somando 10% a mais de pessoas com riqueza superior a US$ 1 milhão, comparado ao ano de 2019 [4]. O crescimento econômico dessa pequena parcela da população acontece justamente devido aos estímulos contra a Covid [5], mesmo em meio ao crescimento da pobreza no mundo pela pandemia.

    E no Brasil a lógica segue próxima. Segundo estudo da ONG Oxfam, entre 18 de março e 12 de julho de 2020, o patrimônio dos 42 bilionários do Brasil passou de US$ 123,1 bilhões para US$ 157,1 bilhões [6]. Além do aumento patrimonial dos mais ricos, é possível atestar incentivos das privatizações no pós pandemia do país, seguidos por discursos parlamentares e de outros agentes políticos, como o presidente da República e o ministro da Economia, com o uso da retórica da recuperação da crise causada pela pandemia, para impulsionar o apoio a privatizações e a leilões de estatais (ainda que haja resistência ao apoio dessas políticas) [7].

    Além da frente de enfraquecimento de partes do Estado, durante a pandemia vemos os esforços empreendidos nos ajustes fiscais e nas restrições de direitos, como os congelamentos salariais e da progressão de carreiras públicas em curso. Sobre o primeiro, a Lei 173/2020, que estabelece o Programa Federativo de Enfrentamento ao Covid-19, mostra a fragilidade dos direitos dos servidores públicos ao exigir, como contrapartida do acordo de auxílio fiscal e financeiro do Governo Federal aos estados e municípios, a impossibilidade de aumento, reajuste ou adequação de remuneração dos servidores federais, estaduais e municipais, bem como quinquênios e outros direitos, até 31 de dezembro de 2021 [8].

    Essas manobras vão ao encontro do que Klein afirma sobre a chamada doutrina de choque, que se apresenta como uma oportunidade defendida por economistas de impor ideias mais radicais do livre mercado em contextos catastróficos, como uma grande crise econômica, uma guerra, um ataque terrorista ou um desastre socioambiental (2008).

    Outras questões interpostas ao neoliberalismo, ao capitalismo de desastre e às lógicas do lucro caminham ao encontro das experiências brasileiras ligadas às tentativas de desvios e superfaturamentos de insumos hospitalares em estados brasileiros e de vacinas envolvendo o governo federal e representantes de vendas das suas fabricantes (mas este assunto fica para uma próxima reflexão). 

    O capitalismo de desastre opera na atual crise sanitária intensificando ainda mais as consequências sociais e econômicas ocasionadas com a pandemia: aumento da desigualdade, da fome e do desemprego (não podemos esquecer dos conflitos raciais, da violência doméstica, da truculência das forças de segurança pública do estado em periferias e comunidades). Aqui no Brasil os efeitos são ainda mais perversos para os mais pobres, quando atestamos a falta de uma gestão da crise eficiente e uma política pró contaminação e mortes dos trabalhadores. A conclusão a que se pode chegar é a apresentada por Leonardo Boff: "Aqui se mostra a plena consciência de que uma economia só de mercado, que tudo mercantiliza, e sua expressão política o neoliberalismo são maléficas para a sociedade e para o futuro da vida" (2020) [9].

    Apesar da falta de perspectiva que a extensão e a duração da pandemia possam propagar, há movimentos que apontam para direções opostas às lógicas impostas. Países começaram a rever questões sociais, por exemplo, em relação aos auxílios emergenciais, à suspensão de despejos, aos auxílios a desempregados e ao estímulo a serviços públicos de saúde, características de uma Social Democracia acionadas para (paradoxalmente) manter a continuidade do neoliberalismo. Como afirma Klein, choques e crises nem sempre seguem a doutrina do choque e esta história ainda não terminou (2020) [10].

[1] Texto disponível em https://dialogosdofimdomundo.blogspot.com/2021/04/covid-19-e-as-ciencias-sociais-dos.html (acesso em 11 jul. 2021).

[2] “CORONAVÍRUS: Como vencer o capitalismo que se abastece de desastres”? Disponível em https://theintercept.com/2020/03/21/coronavirus-capitalismo-de-desastre/ (acesso em 11 jul. 2021).

[3] “Bilionários da Índia ficam mais ricos, enquanto Covid-19 leva vários à pobreza”. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/07/09/bilionarios-da-india-ficam-mais-ricos-enquanto-covid-19-leva-varios-a-pobreza (acesso em 11 jul. 2021).

[4] “Mundo ganha milionários na pandemia; no Brasil, número de ricos cai e desigualdade aumenta”. Disponível em https://www.infomoney.com.br/economia/mundo-ganha-milionarios-na-pandemia-no-brasil-numero-de-ricos-cai-e-desigualdade-aumenta/ (acesso em 12 jul. 2021).

[5] Matéria “Estímulos contra a crise da covid deixaram os bilionários ainda mais ricos”. Disponível em https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/05/15/estimulos-contra-a-crise-da-covid-deixaram-os-bilionarios-ainda-mais-ricos.ghtml (acesso em 12 jul. 2021).

[6] “Patrimônio dos super-ricos brasileiros cresce US$ 34 bilhões durante a pandemia, diz Oxfam”. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/27/patrimonio-dos-super-ricos-brasileiros-cresce-us-34-bilhoes-durante-a-pandemia-diz-oxfam.ghtml (acesso em 12 jul. 2021).

[7] “Projeto proíbe privatizações até 12 meses após o fim da pandemia”. Disponível em https://congressoemfoco.uol.com.br/informe-fenae/projeto-proibe-privatizacoes-ate-12-meses-apos-o-fim-da-pandemia/ (acesso em 12 jul. 2021).

[8] Lei Complementar nº 173, de 27 de maio de 2020, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp173.htm (acesso em 12 jul. 2021).

[9] “O coronavírus: o perfeito desastre para o capitalismo do desastre”. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597264-o-coronavirus-o-perfeito-desastre-para-o-capitalismo-do-desastre (acesso em 12 jul. 2021).

[10] “CORONAVÍRUS: Como vencer o capitalismo que se abastece de desastres”? Disponível em https://theintercept.com/2020/03/21/coronavirus-capitalismo-de-desastre/ (acesso em 11 jul. 2021).

Bibliografia:

BOFF, Leonardo. O coronavírus: o perfeito desastre para o capitalismo do desastre. Revista IHU Unisinos, 20 mar, 2020. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597264-o-coronavirus-o-perfeito-desastre-para-o-capitalismo-do-desastre (acesso em 12 jul. 2021).

BRASIL. Lei Complementar nº 173, de 27 de maio de 2020. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp173.htm (acesso em 12 jul. 2021).

CORREA, Maria Suellen Timoteo. Covid-19 e as Ciências (Sociais) dos Desastres. Blog Diálogos do Fim do Mundo, 7 abr 2021. Disponível em https://dialogosdofimdomundo.blogspot.com/2021/04/covid-19-e-as-ciencias-sociais-dos.html (acesso em 11 jul. 2021).

Das, Veena. Critical Events. An Anthropological Perspective on Contemporary Índia. Delhi: Oxford University Press, 1995, 230 p.

KLEIN, Naomi. A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Tradução Vania Cury. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

___________. Coronavirus: Como vencer o capitalismo que se abastece de desastres? The Intercept, 21 mar 2020. Disponível em https://theintercept.com/2020/03/21/coronavirus-capitalismo-de-desastre/ (acesso em 11 jul. 2021).

MADHOK, Diksha. Bilionários da Índia ficam mais ricos, enquanto Covid-19 leva vários à pobreza. CNN Brasil, 09 jul. 2021. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/07/09/bilionarios-da-india-ficam-mais-ricos-enquanto-covid-19-leva-varios-a-pobreza (acesso em 11 jul. 2021).

MENDES, José Manuel. A dignidade das pertenças e os limites do neoliberalismo: catástrofes, capitalismo, Estado e vítimas. Sociologias, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vol. 18, núm. 43, 2016.

MONTANO, S.; SAVITT, A. Not All Disasters Are Disasters: Pandemic Categorization and Its Consequences. Essay “Covid-19 and the Social Sciences”. Items - Insights from the Social Sciences. September 10, 2020. Disponível em https://items.ssrc.org/covid-19-and-the-social-sciences/disaster-studies/not-all-disasters-are-disasters-pandemic-categorization-and-its-consequences/ (acesso em 04/04/2021).

PATRIMÔNIO dos super-ricos brasileiros cresce US$ 34 bilhões durante a pandemia, diz Oxfam. G1, 27 jul. 2020. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/27/patrimonio-dos-super-ricos-brasileiros-cresce-us-34-bilhoes-durante-a-pandemia-diz-oxfam.ghtml (acesso em 12 jul. 2021).

PROJETO proíbe privatizações até 12 meses após o fim da pandemia. Congresso em Foco, 31 jul. 2020. Disponível em https://congressoemfoco.uol.com.br/informe-fenae/projeto-proibe-privatizacoes-ate-12-meses-apos-o-fim-da-pandemia/ (acesso em 12 jul. 2021).

SEGALA, Mariana. Mundo ganha milionários na pandemia; no Brasil, número de ricos cai e desigualdade aumenta. Infomoney, 22 jun 2021. Disponível em https://www.infomoney.com.br/economia/mundo-ganha-milionarios-na-pandemia-no-brasil-numero-de-ricos-cai-e-desigualdade-aumenta/ (acesso em 12 jul. 2021).

SHARMA, Ruchir. Estímulos contra a crise da covid deixaram os bilionários ainda mais ricos. Globo, 15 mai 2021. Disponível em https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/05/15/estimulos-contra-a-crise-da-covid-deixaram-os-bilionarios-ainda-mais-ricos.ghtml (acesso em 12 jul. 2021).


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Covid-19 e as Ciências (Sociais) dos Desastres

 

A pandemia ocasionada a partir da infecção do novo Corona Vírus em todo o mundo vem sendo tratada pelo Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (United Nations Office for Disaster Risk Reduction – UNDRR) como um evento relacionado a desastres e à redução de riscos, a partir de suas inúmeras notícias e ações divulgadas em seu site [1]. É comum ver publicações e relatórios produzidos pelo escritório sobre respostas a desastres e a situações de risco, em diversos países, envolvendo o período deste último ano como o “contexto da Covid-19” e a pandemia como a “crise da Covid-19” [2].

Cientistas sociais da área de desastres e catástrofes, como Samantha Montano e Amanda Savitt [3], abordam a necessidade de tratar a pandemia da Covid-19 de forma mais direta e categorizada nos estudos sobre desastres. Tomando como base a conceituação de desastres de Quarantelli e Perry (2005) e considerando uma abordagem que diferencia teoricamente emergências, desastres e catástrofes, as especialistas em eventos de riscos defendem a abordagem da atual pandemia da Covid-19 enquanto uma catástrofe, pois seus efeitos e necessidades são superiores aos dos desastres, além de abrangerem geograficamente todo o mundo, criando impactos generalizados (MONTANO; SAVITT, 2020).

Ao mesmo tempo que possui relação ampla com catástrofes, a pandemia da Covid-19 possui especificidades e difere da formulação atual das catástrofes em certos aspectos, alguns dos quais:

* As mais de duas milhões de mortes ocasionadas no evento ocorreram direta e majoritariamente a partir de doenças, e não por conta de destruições por eventos climáticos como furacões e inundações, ou por consequências de ações humanas como rompimentos de barragens ou “vazamentos” industriais ou radioativos, por exemplo – o que leva ao tratamento da pandemia por parte de alguns teóricos como “desastre biológico” [3].

* As intercorrências, com um número enorme de internações e da necessidade de cuidados e manobras específicas como internação em unidades de tratamento intensivo, intubação e uso de oxigênio, causaram pressão e colapso sobre sistemas de saúde de diversos países ao mesmo tempo, em escala global.

* A pressão também se deu para as governanças, as quais responderam com a imposição do isolamento social, como uma das medidas de prevenção e administração da crise (considerando a pressão da área científica e social para o isolamento, e a pressão dos mercados internos e do mercado financeiro internacional contrária a essas medidas, sob a ameaça de recessão econômica e desemprego).

 * Além disso, diferente das catástrofes, que são relativamente curtas em duração – considerando, é claro, que em determinados eventos seus efeitos sociais e econômicos persistem longamente para os grupos mais vulneráveis – a pandemia é um evento que já possui duração longa e promete ainda persistir por mais meses ou anos.

Estas diferenças sugerem a necessidade da reformulação nos estudos de desastres, pois como afirmam Montano e Savitt:

 

Os esforços para explorar onde a pandemia se encaixa em nossa definição tradicional de eventos de risco é de particular importância agora, pois a resposta à pandemia Covid-19 está em andamento. Esta ocorrência está prestes a gerar uma nova onda de pesquisas sobre desastres e uma melhor compreensão da localização da pandemia pode aumentar o valor de suas descobertas. Além disso, definir apropriadamente a pandemia pode melhorar a eficácia da resposta e da recuperação, potencialmente salvando vidas e protegendo as comunidades (MONTANO; SAVITT, 2020. Tradução minha).

 

Um dos pontos em comum que relacionam a pandemia atual a um evento de risco se dá na sua complexificada origem. Muitos desastres e catástrofes, envolvendo inundações e deslizamentos de terra, por exemplo, apesar de decorrerem de eventos da natureza, possuem causas ligadas à construção histórica e social dos riscos e à ação humana, a qual se torna uma força sobre a Terra num período chamado Antropoceno [4].

A pandemia, apesar de existir a partir da contaminação de um patógeno natural, o vírus Sars-CoV-2, tem suas causas também relacionadas a fatores historicamente construídos – interligados a padrões socioculturais, políticos e econômicos [5] - que foram facilitando, tanto a transmissão do vírus entre seres humanos quanto a descontrolada vulnerabilidade no combate às mortes e às internações. Essa relação só reforça que este tipo de ocorrência histórica, como os desastres e as catástrofes, merece uma atenção que ultrapasse a questão da natureza e/ou sanitária, além de um intenso investimento em pesquisas de gestão de riscos, de resposta às emergências e de prevenção, abarcando diversas áreas acadêmicas, incorporando aos esforços em andamento, relacionados ao combate ao vírus e sua transmissão.

Portanto, o momento da pandemia pede que cientistas sociais da área de desastres passem a formular novos estudos sobre a pandemia da Covid-19 relacionada a eventos de riscos (desastres e catástrofes), de forma a pontuarem ações das devidas áreas governamentais, somando às pautas econômicas e de saúde já existentes, aumentando as respostas desenvolvidas nas políticas públicas e contribuindo para uma saída mais eficaz e rápida da crise e sua repercussão catastrófica.

[*] Homem passa por grafite sobre Covid-19 no Rio de Janeiro 07/10/2020 REUTERS/Ricardo Moraes. Foto tirada de matéria escrita por Gabriel Araujo “Brasil registra 271 novos óbitos por Covid-19 e total vai a 154.176”, da Reuters, disponível em https://www.reuters.com/article/saude-coronavirus-19out-idLTAKBN2742TW (acesso em 04/04/2021).

[1] Disponivel em https://www.undrr.org/hazard/epidemic-pandemic (acesso em 04/04/2021).

[2] Como é possível ver em publicações como “The Americas & the Caribbean: COVID-19 crisis is an opportunity for cities resilience”, disponível em https://www.undrr.org/news/americas-caribbean-covid-19-crisis-opportunity-cities-resilience; “Action Brief: Gender and Disaster Risk Reduction and Response in the Context of COVID-19: The Asia-Pacific Region”, disponível em https://www.undrr.org/publication/action-brief-gender-and-disaster-risk-reduction-and-response-context-covid-19-asia; “Review of COVID-19 Disaster Risk Governance in Asia-Pacific: Towards Multi-Hazard and Multi-Sectoral Disaster Risk Reduction”, disponível em https://www.undrr.org/publication/review-covid-19-disaster-risk-governance-asia-pacific-towards-multi-hazard-and-multi; ou “Tsunami Evacuation during COVID-19: A Guide for School Administrators”, disponível em https://www.undrr.org/publication/tsunami-evacuation-during-covid-19-guide-school-administrators (acessos em 04/04/2021).

[3] Ouvir no podcast “A pandemia é um desastre”, da Universidade Federal de Pernambuco, disponível em https://sites.ufpe.br/rpf/2020/06/19/a-pandemia-e-um-desastre/ (acesso em 04/04/2021) ou ver em “A natureza jurídica da Pandemia Covid-19 como um desastre biológico: um ponto de partida necessário para o Direito”, disponível em https://www.thomsonreuters.com.br/content/dam/openweb/documents/pdf/Brazil/revistas-especializadas/rt-1017-a-natureza-juridica-da-pandemia-covid-19-2.pdf (acesso em 04/04/2021).

[4] Teóricos como Bruno Latour desenvolveram teorias sobre o conceito, que seria a nova época (ceno) da Terra sob o domínio do humano (anthropos).

[5] Pode ser apontado como este tipo de padrão, por exemplo, a criação de animais e a produção alimentícia industrial ou como outro fator a crise climática. Para saber mais, ver “A dimensão ecológica da pandemia”, disponível em http://www.ihu.unisinos.br/597677-a-dimensao-ecologica-das-pandemias (acesso em 04/04/2021).

Bibliografia:

LATOUR, Bruno. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2014, v. 57 n 1.

MONTANO, S.; SAVITT, A. Not All Disasters Are Disasters: Pandemic Categorization and Its Consequences. Essay “Covid-19 and the Social Sciences”. Items - Insights from the Social Sciences. September 10, 2020. Disponível em https://items.ssrc.org/covid-19-and-the-social-sciences/disaster-studies/not-all-disasters-are-disasters-pandemic-categorization-and-its-consequences/ (acesso em 04/04/2021).

PERRY, R. W.; QUARANTELLI, E. L. What is a disasters? New answers to old question. Bloomington, IN, USA: Xlibris Corporation, 2005.

QUARANTELLI, E. L. Emergencies, Disasters and Catastrophes Are Different Phenomena. Delaware Disaster Research Center, University of Delaware, Newark, DE, 2000.

 

 


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O desafio da avaliação em tempos de COVID-19

 

                                                             Ione Moreno. SEMCOM/Fotos Públicas

Escrito por Rodrigo Piquet Saboia de Mello

 

Um dos principais vértices no processo de ensino-aprendizagem no âmbito escolar (e acadêmico) é o componente avaliação. Isto porque a ação avaliativa não é um mero instrumento burocrático de complemento da disciplina ofertada ou uma ação punitiva para aqueles alunos que não tenham atingido as metas desejadas. A avaliação é um instrumento profundo de complementação da ação pedagógica que foi desenvolvida ao longo da relação dialógica entre corpo discente e docente.

E o porquê desta discussão neste momento que deveríamos ou desejaríamos estarmos voltados para as festividades de final de ano e nos prepararmos para o ano vindouro. Porque este foi um ano absolutamente excepcional. Passamos praticamente todo 2020 sob o espectro de uma nova doença chamada COVID-19.

Em função desta doença e da falta de medicamentos comprovadamente eficazes, o mundo todo teve que se preparar para um panorama inusitado desde o ano de 1918 quando tivemos a última grande pandemia que foi a gripe espanhola. Diversos países adotaram duras medidas de restrição de circulação de pessoas com o fito de ao menos frear a expansão da doença com dois objetivos principais: evitar sobrecarregar os sistemas de saúde e se preparar para que o avanço científico possa em um curto período de tempo criar uma vacina para imunizar a humanidade.

Nesta efeméride conturbada, uma das atividades mais afetadas por sua própria peculiaridade foi o sistema escolar. Isto porque pelas escolas às vezes milhares de alunos e alunas estão em circulação diariamente e são ambientes altamente propícios para a propagação de uma doença que se transmite basicamente em contato com uma outra pessoa pelo ar quando infectada.

A Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ) atendendo a determinação do Governo do Estado decidiu pelo fechamento de todas as unidades escolares. Como uma forma de não desassistir completamente o corpo discente das instituições escolares, a SEEDUC-RJ implementou uma plataforma online de produção de conteúdo e interação com os alunos chamada Google Classroom. A iniciativa foi uma tentativa emergencial da Secretaria de criar algum tipo de instrumento de acompanhamento pedagógico e avaliativo dos seus milhares de alunos. No entanto, problemas de magnitude apareceram.

Em conjunto com a emergência da doença, ocorreu uma grave crise econômica, em que milhares de trabalhadores perderam os seus empregos fruto do desaquecimento das atividades produtivas. Conjugada a um país que já patinava na economia fazia tempo e do alunado normalmente de origem mais periférica do sistema estatal de ensino, a instrução remota se demonstrou um fracasso pela baixa adesão do sistema implementado.

Quando do início da execução do plano emergencial, se aventou a possibilidade de alunos e professores receberem chips de acesso à internet para que se facilitasse o acesso. Todavia, tal iniciativa não se concretizou. Pelos relatos do ambiente escolar, diversos alunos tiveram que começar a trabalhar para ajudar no sustento em casa, fora que muitos também ou não tem acesso à internet ou sequer portam instrumentos tecnológicos como smartphones, tablets ou computadores para que tenham acesso de fato a plataforma.

Neste momento de final de ano temos o período determinante da vida dos alunos que são os conselhos de classe, também conhecidos pela alcunha de COC. Nas discussões iniciais, pude perceber algumas posturas mais duras, de que o baixo acesso a plataforma fosse originado no desinteresse endêmico dos alunos ou que eles tivessem que se esforçar para garantir que a relação aluno x professor fosse atendida.

Como havíamos dito anteriormente, vivemos um momento de grave excepcionalidade, em que toda a sociedade foi afetada por uma doença que desestruturou o mundo inteiro. O momento avaliativo que começou a se deslindar neste momento deverá sem sombra de dúvida discutir não somente o processo de ensino-aprendizagem empregado, como também toda a conjuntura na qual ainda estamos passando.

Apesar dos fortes rumores de uma vacina eficaz para os próximos meses, professores e alunos ainda enfrentarão um vigoroso desafio de manutenção e fortalecimento dos sistemas de ensino, a adaptação a novos modelos de ensino-aprendizagem, como sistema à distância e/ou híbridos, e aos desafios hercúleos de natureza econômica que batem a porta de cada família, ainda mais aquelas mais desfavorecidas.

Por fim, o momento é de reflexão, parcimônia e, principalmente, acolhimento para com os alunos da rede pública de ensino. Se resumir como ação de avaliação a interação numa plataforma onde muitos alunos sequer tiveram condições de acesso é limitar o papel de professores e professoras que tem por principal responsabilidade serem educadores de uma sociedade com uma oceânica desigualdade econômica, social e educacional.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A vida no mundo “pós” pós-pandemia

Escrita por Leonardo Almeida da Silva (Sociólogo e Cientista Político. Professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT-Cáceres).

 

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano

 

            O sociólogo Boaventura de Sousa Santos costuma dizer que cientistas sociais, no geral, antes de terem conceitos mais consolidados ou melhor elaborados sobre um certo fenômeno ou acontecimento, tendem a colocar o prefixo “pós” naquilo que é novo e, por consequência, ainda desconhecido. Dizer “pós”-“alguma coisa” é indicar que se trata de um fenômeno sobre o qual ainda há muito mais desconhecimento do que conhecimento a respeito. Geralmente trata-se de fenômenos sociais que já existem e influenciam a vida em sociedade, mas seguem como que ávidos por dossiês em artigos de revistas científicas para discuti-lo, pôsteres e mesas-redondas em Congressos e até mesmo teses, livros e profissionais que dediquem suas carreiras ou parte delas a compreendê-lo. E assim poderíamos falar da “pós” modernidade, da “pós” democracia, “pós” qualquer outra coisa. Peguemos o “pós-Guerra”, por exemplo. Era inicialmente um termo para designar um mundo que seria diferente de antes e durante a II Guerra Mundial, contudo, não se sabia ainda o mundo que restaria e ressurgiria após 1945. Bastava, portanto, colocar o “pós” para designar um momento e uma realidade diferentes e ainda desconhecidos, do qual a única certeza inicial era a de que seria diferente daquele passado ainda bem recente. Desse modo, atualmente, 75 anos depois, “pós-Guerra” tornou-se uma ideia, ou mesmo um conceito, muito mais preciso e consolidado do que em finais da década de 1940.

            Entretanto, os grandes acontecimentos históricos geram muito mais do que discussões, debates, livros e linhas de pesquisa acadêmicas. Eles impactam decisivamente a vida em sociedade, a economia, as instituições. Alteram as expectativas e provocam reações, perdas e prejuízos, bem como podem acarretar em ganhos para alguns e na inexorabilidade de transformações sociais que serão negativas para outros. A grande questão é que, se acerca de um fenômeno novo, mesmo os cientistas sociais ainda não conseguem descrever suas características e abrangência com muita precisão, que dirá o conjunto da sociedade, o qual vive – de modo muito diferenciado entre si – o antigo e o novo, o “atual” e o “pós” sem fronteiras espaço-temporais definidas. Assim sendo, é a partir da compreensão de que há uma fusão do mundo pandêmico com o “pós-pandêmico” neste ano de 2020, um espaço-tempo alargado e indeterminadamente prolongado, que arriscamos essa reflexão.

            Dito isto, decorre que perguntamo-nos incessantemente: o que será do mundo e de nossas vidas após essa pandemia de escala global, em um mundo que parecia se tornar cada vez mais conectado? É possível arriscar uma série de mudanças e transformações em diversas áreas da vida em sociedade e não iremos nos furtar de apontá-las. Contudo, o que talvez haja de mais novo e característico em termos de mudanças em curso, seja o imediatismo para que tais transformações sejam apontadas, catalogadas e definidas. Quem se dedica a estudar o comportamento humano busca descortinar o mundo pós-pandemia com o mesmo vigor que cientistas, médicos e pesquisadores da área da saúde buscam uma vacina. Ainda poucas semanas após a Organização Mundial de Saúde elevar no dia 11 de março o avanço da contaminação pela Covid-19 ao estado de pandemia, muitos de nós já nos debruçávamos em pensar como seria o mundo pós-pandemia. E cá continuamos, seguindo e fazendo o mesmo!

            Para muitos de nós, os efeitos da pandemia – fossem, por exemplo, na área de educação ou mesmo em relação ao comércio – resultariam de um período de isolamento social mais ou menos prolongado: alguns dias ou semanas de aulas seriam perdidos, bem como certas compras e eventos que já estavam programados precisariam ser adiados por algumas semanas ou meses. Só que, nestes pontos, não demorou muito para percebermos que estávamos enganados.

            Classe, raça e gênero, sim, tornaram as consequências da contaminação pelo vírus e os efeitos do isolamento social e da retração econômica mais intensos para determinados segmentos das mais variadas sociedades mundo afora, seguindo o padrão das estruturas de desigualdade pré-existentes e impactando de maneira mais decisiva trabalhadores informais, refugiados, mulheres, pessoas em privação de liberdade, povos tradicionais, idosos, negros, dentre outros. Assim, o ano de 2020 abre e fecha janelas de oportunidades e possibilidades ambíguas e bifurcadas em várias áreas e na maioria dos países do mundo ao mesmo tempo. Por mais complexo que seja não resistirmos ao imediatismo e aderirmos à onda de precisar como seria esse “pós”, podemos aqui nos arriscar a falar de algumas áreas e alguns destes efeitos e das descobertas que já acreditamos termos feito nessa fusão que compulsivamente promovemos entre a pandemia e o seu dia seguinte, caso haja.

            Para dar exemplo, vamos priorizar e falar primeiro da educação. Se em relação à saúde aconteceu e ainda acontece de pessoas serem submetidas a um tratamento com cloroquina, medicamento sobre o qual estava comprovado apenas seus efeitos colaterais e em nada os efeitos desejados, na área de Educação se aplicou um similar malabarismo mental na proposição da educação ou ensino à distância, o EaD: “se não há provas de que funciona, também não há provas de que não funciona”. Neste sentido mesmo que o ano letivo de 2020 não termine, a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio ocorrerá em janeiro de 2021, tendo sido adiada, após muita pressão popular, em cerca de dois meses apenas. Na Educação Básica e Superior, instituições privadas correram para implementar sistemas de ensino remoto para não deixar os seus clientes sem receber seus serviços e continuar com a cobrança de mensalidades. Quanto às instituições públicas de ensino, já precárias em tempos não-pandêmicos, continuaram a deixar os jovens de classes populares para trás – agora turbinado pelo viés da desigualdade do acesso às tecnologias de informação e comunicação – o que vamos notar que impactará seriamente indicadores de qualidade como a evasão e retenção de alunos.

            Contudo, esse otimismo ingênuo do “pós” abriu uma janela para que vislumbrássemos a importância do papel da escola e do professor para a sociedade. Muitos pais, mães e responsáveis, sobretudo os da classe média, passaram a conhecer melhor e mais de perto seus filhos: aquelas crianças e jovens com quem conviviam muito pouco tempo, mesmo nos finais de semana e nas férias, mas que agora estavam ali, em tempo integral e em jornada tripla, necessitando de seu suporte, ao mesmo tempo em que se descobre que o mundo moderno nos fez acostumar com residências demasiado pequenas, resultado da especulação imobiliária e de tamanho tempo que desperdiçamos fora de casa, seja no trânsito, ou realizando atividades para complementar a renda, em especial nos grandes centros urbanos. Muitos de nós acabamos por descobrir que nossas residências não foram feitas para que nós passássemos o dia inteiro – acordados, estudando, trabalhando e acompanhados – nelas. Que dirá ainda das famílias de mais baixa renda nessas mesmas grandes cidades, onde as residências são muito menores e com precariedades, como a escassez de serviços básicos, além da violência, muito maiores, e necessitando realizar o isolamento social e manter a renda familiar da mesma forma, mas com condições materiais praticamente inviáveis.

            Se o reconhecimento às professoras e professores for para além dos parabéns e homenagens no dia 15 de outubro, caso se dê em termos concretos, ou seja, na garantia do direito à formação continuada, na valorização da carreira e do salário, em melhores condições de trabalho e na possibilidade de se dedicar a uma única escola, por exemplo, temos grandes chances de avançar. Porém, dados os mais de 5600 planos de carreira para professores e profissionais da educação que temos nas nossas três esferas de poder, tal valorização só seria possível a partir de um debate mais aprofundado sobre a federalização da carreira docente de norte a sul do país, mas até agora, o mundo “pós-pandêmico” ainda não parece preparado para essa conversa.        

            Já em relação à economia, o imediatismo do “pós” nos levou a perceber consensos importantes a respeito da participação do Estado na economia. Digamos que, se o ideário neoliberal correspondesse a papéis ou ações no mercado financeiro, nesse momento, ele estaria passando pela sua maior desvalorização e tendência de queda na história. Nosso desastre é que ocorre que o Brasil segue, em alguma medida, como que comprando esses títulos podres do neoliberalismo, quando busca dar prosseguimento a uma tal “agenda de reformas” extremamente anacrônica que visa atrair investimento de mercados privados, mas que na prática só enfraquece a prestação dos serviços públicos mais elementares e mantém a concentração da renda e a hegemonia do capital concentrado basicamente em cinco instituições financeiras.

            Grande parte dos países da Europa e a China, por exemplo, não foram nessa linha. Nosso dilema segue porque, comprovadamente, os dogmas do neoliberalismo não têm capacidade nem instrumentos para superar essa crise. Nesse sentido, a fusão do mundo pandêmico com o pós-pandêmico demonstraram que “não há alternativa”: precisamos de uma regulação global emergencial e coordenada do capital, para que se contenham outras tragédias, como a atual, do colapso dos sistemas de saúde, do colapso (e não “mudanças”) do clima, além do colapso social legado pela concentração de renda crescente nas últimas quatro décadas de prevalência da ideologia neoliberal. Contudo, e mais uma vez, as condições sociais e políticas do Brasil “pós-pandêmico”, não nos prepararam ainda suficientemente para esta conversa. Ao menos o debate sobre uma renda básica de cidadania, sobretudo a rapidez com que este chegou à cena pública, foi uma grata surpresa. Contudo, este pode e deve vir acompanhado de um debate mais amplo sobre a necessidade da progressividade no sistema tributário e a uma noção de proteção e seguridade social mais ampliada.

            Pra não dizer que não falamos da saúde. O debate nesta área tem eixos importantes sendo deslocados nesse momento. O mais importante julgo que seja o fato de que os negacionismos, mesmo que não saiam derrotados, de certo modo são colocados em quarentena. O desejo por uma vacina ou mesmo a preocupação com comorbidades modificam a cena que tínhamos em mente acerca do “antigo normal”. Que isso se desdobre em demandas por políticas públicas de saúde eficazes, valorização profissional e democratização das carreiras médicas, enfim, na consolidação de sistemas de saúde públicos, universais e gratuitos é algo que a vida no mundo “pós-pandêmico” nos permite sonhar discretamente de modo mais concreto, dado que a crise atual começou e precisa terminar através de descobertas e do fortalecimento de áreas da saúde. 

            Em síntese, a pandemia do novo coronavírus trouxe consigo e disseminou talvez até em maior intensidade e abrangência, o medo. Seja o medo de perder a vida ou um ente querido ou mesmo o emprego ou boa parte da renda. O medo traz incertezas porque desestabiliza expectativas, faz cancelar projetos pessoais e mina utopias, em que pese um pseudo-otimismo por parte dos brasileiros[1] por um mundo melhor após a pandemia. Acontece que pessoas com medo e minadas por incertezas, não mudam o mundo, pois se ocupam menos com sonhos e com utopias. Pessoas com medo não recuperam a economia. E muitos, mesmo que neguem e não demonstrem o medo da contaminação pelo vírus – com ou sem “histórico de atleta” – tem medo de começar a ter que ter medo do vírus, caso a própria pessoa, ou alguém próximo, ou mesmo sua vida financeira, venham a ser afetadas e até mesmo destruídas pelo vírus que ainda não passou, mas que segue fora do controle, por mais que ele e seus efeitos se tornem conhecidos a cada dia.

            De certo modo, a fusão da pandemia com a pós-pandemia uniu o presente ao futuro e antecipou diversas distopias, como a da predominância de novas tecnologias sobre todas as áreas da vida ou mesmo o dos negacionismos científico e social. Ao contrário de fatalismo, imobilismo e paralisia, a antecipação destas distopias podem nos levar ao limite de que, se não temos mais expectativas de que as mudanças podem ser promovidas de modo gradual e seguro – o que significa mantendo aquelas estruturas de desigualdade pré-existentes – insurgências mais abruptas podem se colocar como alternativas mais (ou unicamente) viáveis. Em um mundo de incertezas é mais provável querermos arriscar, dado que temos pouco a perder. Se, de repente, mudaram as perguntas quando pensávamos que tínhamos todas as respostas, parafraseando Eduardo Galeano, visualizamos que inclusive nossas respostas, na verdade, estavam erradas. Além de a distopia da fusão entre pandemia e “pós-pandemia” demonstrar que as nossas respostas estavam erradas, mostra também que ainda não sabemos muito bem as perguntas. Trabalho para os historiadores do século XXII quando olharem para nossa época. O que eles depreenderão de nós dependerá, em larga medida, das utopias que hoje ainda conseguimos enxergar para não deixarmos de caminhar e seguirmos para uma era ou uma forma de sociabilidade que seja digna de ser chamada muito mais do que de “pós”.

 

 



[1] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/08/73-dizem-que-serao-pessoas-melhores-no-mundo-pos-pandemia-mostra-datafolha.shtml Acesso em 07/09/2020.