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sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Reconhecer resultado eleitoral não é mera formalidade
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Bolsista Fapesp), com período sanduíche na Universidade da Califórnia - San Diego (Bepe/ Fapesp). Mestre em Ciência Política também pela Unicamp, onde se graduou em Ciências Sociais, com habilitação na área de Ciência Política. Professor Assistente no Curso de Licenciatura em Ciências Sociais no Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP-UFPI).
terça-feira, 15 de novembro de 2022
O golpismo na agenda do bolsonarismo: como chegamos até aqui
Escrito por Rafael Polari de Alverga Kritski[i]
Transcorridas
duas semanas desde a vitória do ex-presidente Lula na eleição presidencial,
chama atenção a resiliência de protestos que demandam uma intervenção militar
perante o resultado do pleito. A crença em informações falsas e teorias
conspiratórias, o ensejo autoritário, racismo aberto e utilização de recursos
imagéticos que remetem ao nazismo são algumas de suas características
estruturantes. Contudo, essas manifestações não devem surpreender: nos últimos
anos, consolidou-se uma corrente de extrema-direita no Brasil, a qual tem como
marco embrionário exatamente o golpe de Estado ocorrido em 2016. Isto é,
combinam-se uma agenda política extremista à direita com demandas autoritárias
e golpistas.
O segundo e
interrompido mandato de Dilma Rousseff foi atravessado por grandes protestos –
principalmente nas capitais estaduais e federal – que demandavam sua deposição.
Sendo mais preciso, a oposição não reconheceu o resultado de 2014 e fez de tudo
para inviabilizar a gestão: nos dias seguintes ao pleito, o PSDB, então
presidido pelo candidato derrotado Aécio Neves, entrou com pedido de auditoria
da votação, que se sustentava em denúncias de supostas fraudes expostas em
redes sociais. Portanto, não há novidade nesse tipo de recurso e há uma
continuidade entre o golpismo de 2014-2016 e o de 2022.
Considero que
há uma linha de continuidade entre àquelas manifestações e as atuais, mesmo que
marcada por tensões e contradições. Entre 2014 e 2016, os protestantes concentravam
um perfil de eleitores de Aécio, brancos, idosos e com renda familiar acima de
10 salários mínimos. Sua pauta difusa se concentrava sob o eixo de destituição
da presidenta, num gradiente que variava do apelo ao impeachment ou cassação da
chapa até o pedido por intervenção militar ou estrangeira. Estes, mais
violentos, eram minoritários no conjunto, mesmo que mais histriônicos. Ali,
políticos da direita partidária e entidades federativas de classe financiavam e
convocavam os protestos, que foram decisivos para a criação de um aparente
clima de maioria favorável à derrubada de Dilma. Isto é, um polo da elite
política forjada durante a Nova República insuflou um movimento radical à
direita e antidemocrático quando este serviu aos seus propósitos.
Contudo, essa
corrente de extrema-direita e autoritária não arrefeceu durante o governo
Temer. Pelo contrário: seguindo uma tendência global de emergência de
emergência da extrema-direita, seja pela radicalização das direitas
tradicionais e/ou pela emergência de novos atores políticos anteriormente
periféricos no debate público, houve um profundo rearranjo entre as elites
políticas e a extrema-direita chegou ao poder a partir da eleição de Jair
Bolsonaro. Sua figura, mitificada pelos seus apoiadores, amalgamou esse
movimento em torno de si, gestando uma identidade coletiva para os
participantes desses protestos. Não à toa, desde então, são comumente reunidos
no vocábulo “bolsonarismo” – o que é um tema de debate.
De lá pra cá,
os bolsonaristas se radicalizaram, sempre em sintonia com o intento autoritário
– não concretizado, mas desejado – do presidente contra o poder judiciário, a
imprensa e partidos e movimentos de esquerda. Os casos de violência política aberta
aumentaram, além de um alinhamento evidente de parcelas da burocracia do
Estado, sobretudo forças armadas, polícias estaduais e operadores do poder
Judiciário a esse movimento. Isto é, o chamado bolsonarismo se alastrou e se
solidificou na sociedade civil ao mesmo tempo em que se encrustou no Estado
brasileiro em diversas esferas.
Além disso,
esse movimento tem a capacidade de ampliar para além de si: mesmo com a piora
nas condições de vida da maioria da população e uma gestão genocida da pandemia
do coronavírus, Bolsonaro atingiu sólido resultado eleitoral, ficando apenas
dois milhões de votos atrás de Lula. Contudo, duas questões têm de ser levadas
em conta: a volatilidade de uma parcela do eleitorado que migrou para Jair
desde o primeiro turno, considerando que haviam apenas duas candidaturas
competitivas; e o uso da máquina pública para uma indústria de compra de votos.
Afirmar que o orçamento da união foi todo girado para a tentativa de reeleição,
sobretudo nas semanas que antecederam o segundo turno, não é ser superlativo.
Renova-se,
então, uma pergunta que tem sido constante nos últimos anos: qual é o tamanho
real do chamado bolsonarismo? Essa indagação talvez nunca encontre uma resposta
definitiva, considerando a dificuldade de estabelecer os marcadores para um
apoio genérico ao Bolsonaro como esse movimento. É necessário, então, estabelecer
algumas características para sabermos o que desejamos encontrar. Considero o
chamado bolsonarismo uma expressão do neofascismo contemporâneo, que, resumidamente,
em minha concepção, se assenta num pressuposto de exclusão – não só política,
mas violenta – de determinados agrupamentos sociais identificados como
inimigos, sob marcadores ideológicos, de raça, gênero e classe. Por isso, o
golpismo atual faz parte de seu repertório: afinal, não é o movimento que tem
de se adequar ao sistema político e aos princípios da democracia liberal, mas,
por sua natureza antipolítica e violenta, o ordenamento político é que teria de
ser alterado para o reestabelecimento de uma hierarquia formal entre cidadãos.
É disso que se trata.
Até aqui, as
vigílias em frente aos quartéis ou símbolos militares parecem reunir esse
movimento, sem angariar apoio no conjunto da sociedade. Creio que, de 2014 pra
cá, esse movimento passou por uma depuração: as parcelas menos extremistas
foram se distanciando – ou sendo distanciadas, considerando a paranoia presente
no discurso delirante –, de modo que o grupo foi ficando cada vez mais coeso em
torno da maior radicalidade, mesmo que ampliando socialmente para outras
camadas da sociedade. Sua maior expressão nesses atos golpistas, que, vale
destacar, estão longe de serem espontâneos, mas sim fruto de muito
financiamento obscuro. Portanto, não parece ter tamanho e força para emplacar
uma tentativa real de golpe de Estado.
Ainda assim,
não é possível ignorar sua presença na cena política brasileira. Utilizando uma
palavra que está na moda, o golpismo e o fascismo foram “normalizados”. Há uma
complacência – ou mesmo colaboração – dos agentes de repressão em relação aos
manifestantes, assim como se espraia em espaços como a imprensa comercial a
necessidade de pacificação e unificação do país, isto é, esterilizando o
conflito político e propondo uma nova transição pelo alto. Imprensa comercial,
aliás, que em duas semanas já age novamente com virulência contra Lula e o PT.
Então,
evidencia-se que o Brasil inicia um momento político marcado pela novidade, mas
também pela conservação da marca destes últimos oito anos, de uma violenta
extrema-direita que não desaparecerá apenas a partir da mudança de governo,
mesmo se este obtiver ótimos resultados e aprovação. O chamado bolsonarismo não
é um entulho removível, mas uma corrente política que só desaparecerá a partir
da construção de uma outra hegemonia, combatendo seus aspectos ideológicos – e
suas raízes profundas no traço escravocrata do Brasil –, buscando suas fontes
de financiamento e sustentação institucional. Caso contrário, um golpe de
Estado, que se fixou novamente como uma ideia em nossa vida política, mesmo que
como um espectro, sempre estará à nossa porta.
[i] Professor substituto do Departamento de
Ciências Sociais de Campos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutorando
e mestre em Ciência Política pela UFF (PPGCP-UFF). Contato:
rafaelkritski@gmail.com
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
“DataPovo” versus Datafolha: algumas observações introdutórias sobre o 1º turno das eleições presidenciais
Escrito por Ricardo Bruno da Silva
Ferreira (UFF)
A diferença de
pouco mais de 5 % dos votos de Luís Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao
presidente Jair Bolsonaro (PL), índice menor do que o projetado pelos
principais institutos de pesquisa do país e que culminará com a realização do
2º turno em 30 de outubro, se explica não apenas por um único fator, mas por um
conjunto de fatores associados. Qualquer resposta simples para um quadro
eleitoral complexo escapa do resultado manifestado nas urnas no dia 2 de
outubro. Não menos importante do que a margem relativamente estreita entre os
dois principais presidenciáveis consiste no êxito eleitoral capitaneado por
candidatos(as) de extrema direita vinculados ao presidente Jair Bolsonaro para
cargos nas bancadas estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e
para os governos estaduais, com particular atenção, para as regiões Sul,
Sudeste e Centro-Oeste do país.
É bem verdade que
uma análise no dito “calor do momento” está sujeita a alguns equívocos em
termos diagnósticos acerca do processo eleitoral, algo que o pesquisador
poderia evitar ao se distanciar ainda que por alguns dias do resultado das
urnas valendo-se de mais dados e de informações sobre o fenômeno estudado.
Aceitamos assim o risco ao nos atermos à análise de resultados considerados em
certa medida parciais e inconclusos. Seria, por assim dizer, necessário mais
tempo para digerir a “vontade eleitoral” expressa no pleito geral do dia 2 de
outubro e realizar uma análise mais acurada acerca da guinada bolsonarista
expressa nas urnas revertendo uma tendência de centro-esquerda que parecia se
confirmar nas principais pesquisas de opinião.
Diante da
divulgação ao longo da noite, em tempo real, dos resultados eleitorais pelo Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), seja em relação aos votos para a presidência da República,
como para os demais cargos em disputa, ficava evidente o descompasso perante o
que havia sido publicado às vésperas das eleições pelos principais institutos
de pesquisa, notadamente, o Datafolha e o Ipec. Bem longe de desabonarmos a
seriedade das pesquisas realizadas pelos referidos institutos de pesquisa, a
confirmação de equívocos tão evidentes indica a necessidade urgente de
atualização na metodologia utilizada e de parâmetros de pesquisa adequados à
amostragem de uma sociedade dinâmica[1]. O fato é que em meio a disputa de
narrativas, o chefe do Executivo, que sempre vociferou contra os institutos de
pesquisa, ganhou munição adicional no embate ideológico. Dando-lhe até certo
ponto alguma razão, o “DataPovo” venceu a disputa contra o Datafolha! À revelia
dos descrentes, o contestado instituto Paraná Pesquisas, empresa que angariou
contratos milionários do governo Bolsonaro, fora o mais fidedigno à realidade
das urnas.
A seguir, destaco
algumas observações gerais que merecem maior aprofundamento por parte dos
profissionais da área:
a) Nas últimas
semanas, os principais jornais do país, como a “Folha de São Paulo” e “O Globo”
já noticiavam em suas páginas a melhoria de percepção por parte da população
brasileira em relação à economia. Até então, o olhar crescentemente positivo do
eleitorado quanto ao futuro da economia não havia se revertido em possíveis
votos para o atual ocupante do Palácio do Planalto. Ao que tudo indica, esta
mudança de percepção, motivada ainda que artificialmente pelos efeitos da PEC
nº 1/22 (batizada pela oposição como “PEC Eleitoreira” por ampliar gastos
sociais às vésperas das eleições) e do uso intensivo da máquina pública,
constitui um dos fatores cruciais para se entender a guinada bolsonarista na
reta final da campanha.
b) Por conseguinte,
considero equivocada a tese que imputa à candidatura de Ciro Gomes uma extensa
dose de responsabilidade pela não obtenção dos votos necessários para a vitória
do ex-presidente Lula no primeiro turno. O crescimento bolsonarista está mais
atrelado aos (recentes) índices favoráveis do governo na economia do que
propriamente aos ataques do pedetista. Se é possível falar na responsabilização
de Ciro Gomes, considero que o ex-ministro dos governos FHC e Lula contribuiu
com a despolitização do debate público ao colocar no mesmo patamar o
bolsonarismo e o “lulopetismo” (termo comumente utilizado por Ciro Gomes para
detratar os governos petistas) como as duas faces do mesmo mal. A radicalização
dos ataques ciristas nas últimas semanas tomando como cerne a questão da
corrupção, teve efeitos despolitizantes no debate eleitoral como um todo. Não
obstante, entendo que a pretensa responsabilidade negativa da campanha de Ciro
Gomes sobre o resultado no primeiro turno é bem menor do que se afere.
c) Outro ponto digno
de nota consiste nos erros (nada desprezíveis) cometidos pelo ex-presidente
Lula durante o primeiro turno, como a participação abaixo do esperado nos
debates presidenciais alternando momentos de fragilidade nas respostas aos
ataques adversários (como na réplica de Lula a Bolsonaro em debate realizado na Band o que acabou municiando o “eleitorado bolsonarista”) e a perda de
controle emocional diante do controverso “Padre” Kelmon (no debate da Globo).
Outros erros também foram cometidos, como o deslize na fala em entrevista
realizada no Jornal Nacional sobre o agronegócio (tipificado como “fascista”)
ou mesmo a crítica ao atual presidente classificado pelo petista como um
ignorante e "capiau do interior de São Paulo". Coincidência ou não,
Lula venceu Bolsonaro na capital de São Paulo e perdeu na maioria das cidades
do interior. Em eleições do tipo “cara ou coroa”, um pequeno deslize na
campanha pode favorecer à candidatura adversária.
d) Elemento não
descartável e que explica parcialmente a predileção por Jair Bolsonaro para
parcela do eleitorado brasileiro consiste no sentimento antipetista, que apesar
de difuso e aparentemente inferior ao momento eleitoral de 2018, tem ainda um
considerável potencial de mobilização de alguns segmentos da sociedade
brasileira, em particular, para aquela “classe média”, identificada outrora com
a Operação Lava Jato. Por sinal, os algozes, perante a opinião
pública, do ex-presidente Lula tiveram êxito nas urnas, vide o ex-procurador
Deltan Dallagnol, que se elegeu como o deputado mais votado pelo Paraná, e o
ex-juiz Sergio Moro, eleito senador pelo mesmo estado.
e) Apesar dos esforços
da campanha do ex-presidente Lula em reduzir a resistência do público
evangélico em relação ao Partido dos Trabalhadores, o fato é que Bolsonaro
desfruta de uma vantagem considerável neste segmento da população. Conforme
noticiado, uma movimentação atípica em prol da candidatura de Bolsonaro se
intensificou nas igrejas evangélicas nas semanas que antecederam ao pleito
presidencial. Com peso menor na disputa deste ano, a pauta de costumes se fez
presente no primeiro turno e pode ser decisiva na reta final das eleições. Para
consolidar a vitória sobre o seu adversário no segundo turno, Lula
possivelmente fará acenos mais explícitos ao eleitorado evangélico e
conservador.
Poderíamos ainda
citar outros fatores adicionais, com pesos razoavelmente distintos, para
entender até certo ponto o resultado inesperado das urnas no primeiro turno,
como a dificuldade da campanha de Lula em se desvincular do tema da corrupção,
a falta de capilaridade da esquerda na periferia dos centros urbanos, uma certa
incapacidade de dialogar com alguns setores importantes da sociedade
brasileira, sem contar com a instrumentalização política das redes sociais por
fração significativa da base bolsonarista caracterizada pelo alto grau de
engajamento.
A despeito da
vantagem nada desprezível da campanha de Lula em comparação à Bolsonaro, o que
se infere é que o cenário que se avizinha para o segundo turno adquire contornos
de indefinição. Aos 76 anos, Lula é reconhecidamente a mais importante
liderança da esquerda democrática no Brasil com a capacidade de aglutinar
amplos setores da sociedade, em especial, aqueles que se beneficiaram das
políticas públicas realizadas durante o seu governo. Espera-se, assim, uma
campanha ainda mais radicalizada no segundo turno em que o atual presidente se
valerá de uma artilharia pesada para tentar angariar a maioria dos votos dos
candidatos Ciro Gomes e Simone Tebet (ou até mesmo virar alguns votos de Lula), vide a já anunciada antecipação do pagamento do Auxílio
Brasil para o período que antecede ao pleito eleitoral no dia 30 de outubro.
[1] As explicações dos
Institutos Datafolha e Ipec para a diferença considerável entre as pesquisas de
opinião e os resultados das urnas decorreria, de acordo com os referidos
órgãos, da migração de última hora de eleitores indecisos e de parcela dos
eleitores de Ciro Gomes e de Simone Tebet que preferiram o atual presidente em
relação ao antigo mandatário. O mesmo fenômeno não teria sido observado no caso
do ex-presidente Lula, cuja migração visando o “voto útil” teria ocorrido
gradativamente ao longo do 1º turno.
Professor Adjunto de Ciência Política e Ensino da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor e Mestre em Ciência Política (UFF). Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (UFF). Pesquisa sobre Teoria Política e Pensamento Político Brasileiro.


