Arquivo do blog

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Sobre os 90 anos de Casa-Grande & Senzala

 

Fonte: Arquivo Público de Pernambuco

Escrito por Ricardo Bruno da Silva Ferreira (UFF)

 

Diz-se que uma obra é um clássico quando consegue atingir um amplo e notório nível de reconhecimento público no decorrer do tempo, seja pela qualidade literária, pelo seu alcance duradouro, pela sua relevância teórica e ou mesmo pela sua importância nos marcos da cultura. A atribuição do status de “clássico” a uma determinada obra não segue, por assim dizer, critérios objetivos e tangíveis, podendo derivar de fatores e características que são difíceis de serem definidos a priori. A despeito dos critérios utilizados, constitui fato inequívoco que a obra Casa-Grande & Senzala, publicada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) no ano de 1933, se imortalizou como um clássico das Ciências Sociais brasileiras.

Ao longo de algumas linhas, busco tecer comentários gerais acerca da atualidade da obra Casa-Grande & Senzala, no momento em que se celebra os 90 anos de um dos maiores clássicos – senão o maior - do Pensamento Social Brasileiro. Obra reeditada inúmeras vezes e traduzida para várias línguas, Casa-Grande & Senzala é aquilo que poderíamos chamar de um clássico de nascença.

Pouco afeito às normas rígidas da escrita acadêmica, Freyre escreveu uma obra que marcou época. Já no prólogo da edição de Casa-Grande & Senzala (1977), publicada pela biblioteca Ayacucho de Caracas, Darcy Ribeiro vaticinara que a obra seria lida no próximo milênio. Em certo sentido, a profecia de Darcy Ribeiro se concretizou. Casa-Grande & Senzala conservou a sua originalidade e é tão importante hoje quanto na época em que foi escrita.

Não procuro aqui fazer a enésima exegese de Casa-Grande & Senzala. Nesse sentido, gente muito mais qualificada e especializada no assunto já se debruçou em livros e artigos acadêmicos. Saliento ainda que nada de novo tenho a acrescentar diante de tudo o que já foi escrito e comentado desde que a obra veio a público no início da década de 1930. Tenho, no entanto, uma relação afetuosa com esta obra que fala não apenas do que somos enquanto povo, mas do que fomos e do que, de alguma forma, possamos vir a ser. A despeito das críticas, diga-se de passagem, muitas delas dotadas de justiça, a obra manteve a sua imprescindibilidade no quadro conceitual e analítico das Ciências Sociais.

 Não obstante, a minha formação ter se dado a nível de pós-graduação na área de Ciência Política, considero que a análise realizada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre transborda os domínios da Sociologia e da Antropologia constituindo um verdadeiro patrimônio intelectual das Ciências Sociais. A obra é, por assim dizer, formativa para todo aquele iniciado nas Ciências Sociais. Em tom de troça, chego a exagerar nas minhas aulas dizendo que o cientista social que não leu Casa-Grande & Senzala deveria ter o diploma cassado. Excessos à parte, sempre defendi a necessidade da criação de uma disciplina de Pensamento Social Brasileiro nos cursos de graduação em Ciências Sociais, pois considero imprescindível o contato do discente com autores como o próprio Gilberto Freyre, além de outros não menos importantes, como Sergio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, Caio Prado Junior e Raymundo Faoro.


Gilberto Freyre recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal Fluminense em 1º de janeiro de 1983

Fonte: www.memoria.uff.br


Na aludida versão de Casa-Grande & Senzala (1977), Darcy Ribeiro considerou a etnografia do livro de tão boa qualidade que o leitor acaba sendo seduzido pela descrição idílica utilizada para descrever o Brasil patriarcal. Por sua vez, Fernando Henrique Cardoso relevou que o leitor desatento não se engane que "por trás das descrições, às vezes romanceadas e mesmo distorcidas, há muita pesquisa" (CARDOSO, 2013, p. 80). Cardoso chegou mesmo ressaltar que Gilberto Freyre tinha uma paixão pelo detalhe, pela minúcia e pelo concreto.

Para Freyre, latifúndio e escravidão, assim como a casa-grande e senzala constituíram os pilares da ordem escravocrata no Brasil colonial. A força do argumento do sociólogo pernambucano reside na sua visão inovadora acerca de tal estrutura social. Ao invés de fazer uma análise engessada sobre esse sistema de produção, Freyre vai além ao pensá-lo na prática cotidiana, no dia a dia. Estas estruturas sociais são concebidas como processos vivenciados e não somente como situações de fato.

A simples descrição não seria suficiente para explicar o fenômeno estudado. O autor incorporou assim elementos que fazem parte da vida cotidiana. Não se restringiu a entender as funções sociais desempenhadas na vida pública (como a do senhor de engenho e do bacharel, por exemplo), mas adentrou a vida privada. Na década de 1930, uma Sociologia que levava em consideração certos aspectos da vida privada consistia, de fato, em algo inusitado. Conferiu, de tal modo, relevo à culinária e à arquitetura, além da realçar a dimensão sexual dos atores sociais analisados.

Em Guerra e Paz (2005), Ricardo Benzaquen de Araújo descreveu Gilberto Freyre como o mestre do equilíbrio dos contrários. A obra do sociólogo pernambucano seria atravessada por antagonismos que não redundavam em uma dialética visto não haver uma superação dos contrários. De modo original, os contrários, na obra freyriana, não viveriam em conflito, mas em harmonia. Um exemplo clássico de como se procede o equilíbrio dos contrários consiste no modo pelo qual se estabeleceu a língua portuguesa no Brasil. Esta não chegou a se entregar à forma errática como era falada nas senzalas, nem mesmo se curvou ao formalismo dos gramáticos e jesuítas do período colonial.

O equilíbrio dos contrários constitui uma noção cara ao autor na sua apreensão acerca do real. Esta noção é de suma importância em sua obra concebendo-a de forma plástica. Os objetos analisados são entendidos não como coisas dadas, mas em um processo contínuo ao qual o próprio autor está inserido. Mais do que isso, ao buscar a autenticidade tanto dos documentos como dos depoimentos utilizados, Freyre é acusado de não seguir à risca a linguagem acadêmica. Mais do que demonstrar, ele busca convencer.

A utilização de tais oposições simplificadoras, daquilo que se convencionou chamar de equilíbrio dos contrários, contribuiu para reforçar certas características fundamentais em um dado fenômeno. É por assim dizer um instrumento heurístico que ajuda o autor a compreender e a explicar a realidade.

É importante lembrar que as críticas à obra e ao autor constituem parte indissociável do seu legado de modo ser impossível separá-las. Quase sempre, os críticos pontuaram as contradições do seu pensamento, o tom ensaístico pouco afeito ao formalismo acadêmico, sem falar da sua perspectiva conservadora. No compasso do sucesso da obra desde a sua publicação nos anos 1930, as críticas se avolumaram e foram repisadas por inúmeros comentaristas. Dentre os pontos mais criticados estão o engodo da democracia racial, a mitigação da luta de classes, o ecletismo metodológico, certos equívocos entre as noções de raça e cultura, além de uma visão distorcida a respeito da cultura brasileira marcada tanto pela plasticidade como pelo hibridismo de origem ibérica.

Em vista da comemoração dos 90 anos de Casa-Grande & Senzala, a Global Editora publicou recentemente o box “O Brasil Segundo Gilberto Freyre”, trilogia que agrega além de Casa-Grande & Senzala, obras da alçada de Sobrados e mucambos (1936) e Ordem e progresso (1959). Poucos não foram os títulos publicados pelo sociólogo pernambucano ao longo da sua vida, como poucos não foram os prêmios e honrarias recebidos, como a Excelentíssima Ordem do Império Britânico, o Prêmio Jabuti de Literatura e o Prêmio Machado de Assis – este último conferido pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

Decorrido 90 anos de publicação de Casa-Grande & Senzala, a obra se mantém tão fundamental hoje para compreensão dos problemas que circundam a sociedade brasileira quanto na época em que foi escrita. Uma obra que lança luz sobre os alicerces da cultura, das relações sociais, da miscigenação racial e da identidade nacional do Brasil.

 

Referências Bibliográficas:


ARAUJO, R. A. B.. Guerra e Paz: Casa-Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Editora 34, 2005.

CARDOSO, Fernando Henrique. Pensadores que inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande y senzala: Formación de la família brasileña bajo el régimen de la economia patriarcal. Prólogo e cronologia de Darcy Ribeiro. Caracas: Biblioteca Aycucho, 1977.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique Cardoso. São Paulo: Global, 2006.

PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2000.

VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil: Populações Rurais do Centro-Sul. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 1987.

VIANNA, L. J. W. . A Revolução Passiva: Iberismo e Americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2004. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Diálogos em Memórias com Andréa Lúcia da Silva de Paiva

 

Fonte: Arquivo pessoal de Andréa Paiva

Entrevistada: Profª Drª Andréa Lúcia da Silva de Paiva[1]

Thaymara Assis: Professora, qual é a sua principal memória da UFF Campos? Quando você pensa em UFF Campos, o que vem em sua lembrança?

Andréa Paiva: O que mais aparece em minhas lembranças são as memórias geracionais. Eu acho que é muito difícil responder essa pergunta, porque são memórias que se desdobram em muitas trocas de experiência. [...]  - Quando eu chego na Universidade Federal Fluminense (UFF), as relações são diferentes daquelas que ocorreram no meu tempo de graduação. [...] . A minha relação de trabalho é mais ampla. Nesse sentido, não enxergo apenas a minha relação com os estudantes, mas com um conjunto composto por alunos, seguranças, motoristas e o pessoal da limpeza, por exemplo. A gente aprende muito com esse conjunto de experiências e esses vários papéis sociais que ocupam a universidade.  Além disso, as memórias relacionadas a UFF Campos não se restringem apenas ao campus, ela é comunitária também. A forma como a comunidade percebe a UFF, ou seja, no aspecto negativo ou positivo. Isso é o que mais me chama a atenção. 

Sua pergunta é difícil porque a memória remete a um conjunto de relações: memória-trabalho e memória-relações para além da instituição, mas que também fazem parte dela. Eu trabalho com o conceito de memória e sempre discuto que a memória não é só teórica. Ela também se coloca como metodologia quando está sendo construída por nós. A memória não é planejada, ou seja, não se faz memória intencionalmente, ela se configura independente de minhas vontades. As memórias vão se constituindo através de muitas marcas. Quando a gente usa a palavra “marcas”, as pessoas associam ao estigma, mas não é necessariamente uma questão relacionada a esse conceito. É uma questão de momento e de contexto. Por exemplo, agora a memória que me surgiu com a sua pergunta é do meu primeiro orientando David, que veio a falecer depois. Lembro-me da desconstrução que as Ciências Sociais causaram nele com o estranhamento e a desnaturalização. Ele foi para mim uma peça-chave disso. Ele era brincalhão e fazia piadas relacionadas à questão do senso comum. Depois, ele foi cada vez mais se tornando alguém criticamente reflexivo. É curioso como a gente vai colocando metas, carinho, marcas e desafios também. A UFF me ensinou e vem me ensinando esse conjunto de sentimentos que constituem as nossas narrativas de memórias, as nossas marcas pessoais e coletivas.

Fonte: Arquivo pessoal de Andréa Paiva

Nós brincamos entre os professores que quando você entra para a universidade você vai fazer ensino, pesquisa e extensão, mas há o quarto item, que é a gestão. Em relação ao ensino, a questão de você ir fazendo os seus planejamentos e suas aulas através de muitas trocas foi muito interessante porque, apesar de ter como referência meus antigos professores na UFRJ, eu achava que a postura de um professor universitário era um pouco mais reservada. De uma certa forma, é! Porém, na UFF Campos é diferente! Você se sente mais à vontade para passar seus ensinamentos e conhecimentos através de um diálogo mais amplo com os alunos que se envolvem e comentam nas aulas. Essa prática vem da época em que eu era professora do ensino fundamental e médio. É um exercício grande dentro das Ciências Sociais a tentativa de colocar a teoria na prática. Eu posso falar que o fato de eu ter sido professora do Ensino Médio e Fundamental, onde eu ministrava Sociologia e Filosofia na cidade do Rio de Janeiro, nos colégios particulares e públicos, me obrigou a pensar teorias, temas e conceitos, mas também a prática. Afinal, como apresentar um conteúdo que faça sentido para aqueles alunos? Caso contrário, ficamos em uma esfera de conhecimento muito fechada dentro do nosso próprio conhecimento, talvez, até muito “elitizado” quando pensamos que esse conhecimento se restringe a um pequeno grupo. Eu tinha alunos de Sociologia e Filosofia desde a 5ª série até o Ensino Médio. Então, quando venho para a UFF Campos, eu trago um pouco dessa experiência. Considero isso um grande ganho, no sentido de colocar à frente de técnicas de ensino, por exemplo, a possibilidade de usar jogos para discutir cotas em sala de aula. Isso foi me aprimorando e na universidade, por conta da dedicação exclusiva, encontro mais possibilidades de fazer essa imersão, essa imaginação sociológica, política e antropológica, de fluir. 

A experiência de quando vou para a pesquisa também é fantástica, pois é um diferencial dentro da minha trajetória: desenvolver uma pesquisa com os estudantes, inseri-los nesse meio, aprender e perceber a importância de nós cientistas e professores na sociedade... Quando o aluno recebe uma bolsa, por exemplo, através do trabalho que você coordena, isso tem um valor e peso muito grande na vida daquele estudante. Tive a experiência de ter estudantes de todos os estágios e níveis e o envolvimento deles, nosso local como pesquisadores perante à sociedade tem um grande valor para mim.

Quanto ao projeto de extensão, eu faço parte junto com a professora Geovana do Motirõ Nhãdereko (Grupo de Pesquisa em Memória e Cultura). O projeto começou em 2013 e foi fundado através de ideais em comum. O nome do projeto foi dado por um indígena que fez um ritual muito interessante aberto para todos e que chamou muito a atenção da comunidade externa da UFF. Neste dia, me lembro que tínhamos até crianças presentes. Durante o evento, enquanto (o indígena) Werá Djekupe discursava, as pessoas ficaram muito empolgadas e insistiam em pedir para tirar fotos com ele vestido com seus adereços, como se o valor do seu discurso só fosse válido quando ele estava caracterizado como um indígena. A partir daí, vimos os desafios que enfrentaríamos e a importância de desnaturalizar e desmistificar certos termos e conceitos. A Geovana sempre ressalta em nossas atividades, principalmente, a pertinência da causa indígena. Eu também me debruço nas relações raciais, sobretudo, na questão negra. Esse trabalho de desnaturalizar preconceitos é também necessário entre os estudantes. Me lembro que alguns alunos usavam, por exemplo, a palavramacumba” de modo pejorativo, sinalizando um problema que envolvia tanto a comunidade externa como a comunidade acadêmica da UFF Campos. Essa é a prova que precisamos tocar adiante os projetos de extensão. Hoje, com a Universidade para a Terceira Idade (UNITI), percebo ainda mais essa força da relação entre universidade e comunidade.

Trabalhar com a gestão também foi um grande marco para mim, porque nunca havia sido coordenadora e passei a ser do curso de Licenciatura em Ciências Sociais. Neste momento, Geovana estava como a minha vice. E foi impressionante como percebi a importância de trabalhar na coordenação para um professor universitário. O que me chamava atenção era a proximidade com os alunos e a capacidade de ouvi-los contribuir no plano de estudo, levar propostas e aprender a coordenar reuniões, principalmente, porque sempre fui muito tímida. Na verdade, ainda me vejo no processo de melhorar essa questão, especificamente por conta do ensino remoto como consequência da pandemia. Quando você dá aula, há uma certa transformação e é um bom exercício para a timidez. Como coordenadora, na tarefa de chefiar reuniões também me vi exercitando esse lado mais ativo.... Uma das memórias mais marcantes desse período foi a tarefa de pensar as políticas públicas educacionais, não apenas como teoria, como também em sua prática. Ou seja, lendo, oferecendo uma reflexão para a melhoria dessas políticas e formulando novas propostas. Nesta ocasião, as professoras Gabriela, Érica, Geovana e eu fizemos a primeira reforma curricular do nosso curso. Foi também quando continuamos participando junto ao Colegiado Geral de Licenciaturas de leituras documentais, propostas, arranjos, formas de pensar e inserir as políticas públicas educacionais. Essa parte para mim, junto com a questão de ouvir o estudante que aparecia na coordenação, foi um grande “samba”. Foi uma grande escola para mim, como se fosse mais um “abre alas” dentro desse conjunto de memórias e relações, que dá um samba com um enredo bom, uma alegria boa, principalmente, quando você olha para trás e atravessa a avenida e escuta os sons das memórias acumuladas. 

A questão da memória na nossa área de Ciências Sociais é a sua própria força de humanização. A memória não dada (mas construída coletivamente)! Gostaria de agradecer a contribuição do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo em reunir essas tantas memórias que colecionamos. Essas memórias não estão no passado, elas estão vivas e continuamente são ressignificadas no nosso presente, e sou grata por contribuir com essa narrativa.

 



[1]  Graduada em Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre pelo Programa em Pós-Graduação em Memória e Documento da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É coordenadora do Programa de Extensão Universidade para Terceira Idade (UNITI) da UFF/Campos. Foi coordenadora da Residência Pedagógica, Programa de Formação à Docência, entre agosto de 2018 a janeiro de 2020. Foi coordenadora do curso de Ciências Sociais - Licenciatura (2014-2018). É professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes. Coordena o Grupo de Pesquisa em Memória e Cultura Motirõ Nhãdereko. É membro efetivo do Laboratório de Pesquisa em Ensino de Ciências Sociais (LAPECS).

 


quarta-feira, 30 de agosto de 2023

DIÁLOGOS DE MEMÓRIAS

 

Apresentação Diálogos de Memórias

 

É com grande satisfação que apresentamos a ação extensionista Diálogos de Memórias, parte integrante do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo, coordenado pelos professores Mariele Troiano e Ricardo Bruno da Silva Ferreira, docentes da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais de Campos, do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense (COC-ESR-UFF).

Originalmente, o projeto Diálogos do Fim do Mundo consistia em uma plataforma virtual, em formato de blog, destinada à divulgação científica de artigos e resenhas na área de Ciências Sociais. Diante de demandas geradas a partir do ensino remoto, o projeto passou a abarcar progressivamente novas ações extensionistas, como a realização de entrevistas com renomados pesquisadores e intelectuais da área de Ciências Sociais, particularmente, da Ciência Política.

Desde o ano de 2022, os coordenadores do projeto se voltaram para uma nova empreitada: a preservação e divulgação das memórias dos professores que integram atualmente o Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos. Foi assim gestada a ação extensionista Diálogos de Memórias, que busca preservar as memórias dos docentes do COC desde o seu ingresso na UFF.

No contexto da comemoração dos 60 anos da UFF Campos, ocorrida em 2022, e dos 15 anos do Departamento de Ciências Sociais, que será comemorado em 2024, esta iniciativa visa preservar e compartilhar as memórias dos docentes que moldaram a história e a trajetória institucional da Universidade Federal Fluminense no município de Campos dos Goytacazes. Mais do que um simples olhar retrospectivo, Diálogos de Memórias emerge como um esforço conjunto para capturar a contribuição singular de cada um desses profissionais ao longo do tempo.

A relevância de Diálogos de Memórias transcende a mera celebração dos fatos passados ao propor uma relação intrínseca com os projetos futuros e a construção de uma história das ideias de um grupo de docentes (ROSANVALLON, 1995). Assim, experiências e expectativas profissionais e pessoais se embaralham compondo uma categoria meta-histórica que muito favorece a compreensão do tempo-vivido, diferente de quando é percebido isoladamente. Dessa forma, os múltiplos espaços de experiências expostos nos conteúdos das entrevistas conjugam com outros tantos horizontes de expectativas ainda não tão organizados e estabelecidos (KOSELLECK, 1979). As experiências que muito contribuíram para moldar o Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos atualmente, bem como o estabelecimento de suas relações dentro do campus de Campos dos Goytacazes, também contribuem para o desenho dos projetos futuros e objetivos a serem alcançados, sobretudo, quando é manifesta a menção de um espaço físico em construção. Cada relato é uma janela para o passado, iluminando a trajetória da instituição e lançando luz sobre os esforços incansáveis que resultaram nas realizações que celebramos hoje.

Gostaríamos de expressar nossa sincera gratidão aos professores do Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos que participaram ativamente deste projeto, compartilhando suas valiosas memórias. Aproveitamos para convidar a comunidade acadêmica, em especial, os estudantes, a se envolverem nesse conjunto de memórias. Através da leitura e reflexão sobre esses relatos, desejamos que todos possam obter um entendimento mais profundo do legado e da trajetória do Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos, inspirando-nos a continuar construindo um futuro cada vez mais brilhante.  

Equipe do Projeto Diálogos de Memórias:

Mariele Troiano (coordenadora)

Ricardo Bruno da Silva Ferreira (coordenador)

Vitória Ribeiro de Azevedo Dias (bolsista de extensão 2023)

Beatriz Siqueira Rodrigues (aluna voluntária)

Thaymara Assis de Lima (bolsista de extensão 2022)

Referências bibliográficas:


KOSELLECK, R. Uma História dos Conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, n.10, 1992, p.134-146.

ROSAVALLON, Pierre. “Por uma História Conceitual do Político”. Revista Brasileira

de História. São Paulo, 30, 1995, p.9-20.


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Livro gratuito disponível para download

 



É com satisfação que divulgamos o e-book " Debates e Agendas em Ciências Sociais : diálogos em tempos de pandemia", organizado pelos professores Mariele Troiano (UFF) e Ricardo Bruno da Silva Ferreira (UFF). A obra tem por objetivo divulgar o conhecimento científico em Ciência Política a partir de um contexto marcado pelos dilemas da pandemia. A obra conta conta com 8 entrevistas de professores e pesquisadores renomados na área de Ciências Sociais: Mauricio Vieira Martins (UFF); Maria do Socorro Braga (UFSCAR); Bárbara Breder Machado (UFF) e Flávia Mendes Ferreira (SEEDUC-RJ); Dalton Rodrigues Franco (UNESA); Rafael Gonçalves Gumiero (UNIFESSPA), Carlos Henrique Aguiar Serra (UFF), Aline Vanessa Zambello (UNICAMP) e Lorena Guadalupe Barberia (USP).

 

Resultado do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo, a obra pode ser adquirida gratuitamente pelo link:

https://editoratelha.com.br/product/debates-e-agendas-em-ciencias-sociais-dialogos-em-tempos-de-pandemia/

 

Façam uma boa leitura!


sexta-feira, 21 de julho de 2023

A descoordenação da disciplina de Sociologia e a Polissemia Democrática: um fenômeno de causa e efeito.

Escrito por Emannuel Santana[i]

 

 A condição que se insere a disciplina de sociologia reflete na maneira como a Ciência se desenvolveu como campo de pensamento no Brasil[ii]. Seu caminho é perpassado por uma série de intercorrências ao longo dos séculos XX e XIX que justificam a intermitência no processo de institucionalização a que ela foi condicionada. Essa intermitência tem, como observamos, um grau elevado de importância na formação da tradição do ensino de Sociologia e, por conseguinte, no ensino de Ciência Política.

É possível identificar um processo descoordenado para que essa intermitência se mantivesse. As descontinuidades são inúmeras, por exemplo, durante a Ditadura Militar, houve uma descontinuidade da disciplina de sociologia em sala de aula, somada a uma ruptura no modo que os conteúdos de sociologia se desenvolviam. Em meados dos anos 1960, enquanto as principais escolas de Sociologia estavam se desenvolvendo, a presença de uma disciplina que abordasse de maneira científica seus conteúdos era mitigada. Outro exemplo é o processo da Reforma do Ensino Médio que agregou o caráter interdisciplinar à disciplina de Sociologia e, posteriormente, opcional. Logo, sob a ótica da trajetória histórica da disciplina nos currículos escolares é possível apontar para uma descoordenação da própria Sociologia de se apresentar enquanto uma área múltipla, com objetivos pertinentes para a produção de conhecimento, bem como transformação da sociedade, fazendo uso, inclusive, dos objetivos específicos das áreas adjacentes como Ciência Política e Antropologia.

Essa descoordenação pode ser percebida já nas legislações, que abordam em apenas uma disciplina temas de três áreas: Ciência Política, Sociologia e Antropologia, ou seja, sem se ater às especificidades e como cada área pode contribuir com a sociedade de maneira específica. Na prática, a descoordenação se apresenta na formação dos profissionais de educação das Ciências Sociais, que também é, por sua vez, interdisciplinar. Esse itinerário formativo é positivo para a formação desses profissionais. Não se trata aqui de uma crítica a interdisciplinaridade. Todavia, é possível notar que os currículos mínimos da disciplina de sociologia ao não abordarem de maneira específica os critérios analíticos da Ciência Política, permitindo que os conteúdos dessa ciência sejam trabalhados de maneira transversal e até mesmo por professores de outras áreas das ciências humanas, favorecem ainda mais a manutenção de um processo fragmentado de institucionalização da disciplina. Aliás, essa prática legislativa de apresentar a Sociologia com a representante das Ciências Sociais mais enfraquece do que favorece conceitos que fundamentam a construção dos objetivos práticos da disciplina - seja o da apreensão e prática da cidadania ou a produção de estranhamento e desnaturalização. Nesse sentido, nas legislações PCN, PCN+ e OCNem a interdisciplinaridade pode ser analisada positivamente por integrar as disciplinas de Ciências Humanas em um objetivo comum e favorecer o desenvolvimento de técnicas práticas para os jovens viverem e se relacionarem em sociedade. Mas elas também podem ser avaliadas negativamente ao não evidenciarem os objetivos centrais dos conteúdos e conceitos de Ciência Política, sendo acionados apenas para justificar os objetivos comuns das áreas.

A análise da BNCC leva-nos a uma reflexão sobre todo o processo de construção teórica e práxis das normas educacionais. Se podemos argumentar que a Reforma do Ensino Médio é reflexo de um projeto educacional de cunho neoliberal, também podemos afirmar que conceitos de poder e formação de Estado deixam de ser cada vez mais relevantes diante de perspectivas individualistas e meritocráticas, permitindo à sociedade se construir e se fortalecer de maneira desigual. A fim de perpetuar essas desigualdades, a justificativa da visão neoliberal para reformar o Ensino Médio é justamente a de garantir a liberdade, fantasiosa, de escolha. Não é sem razão a necessidade de diluir a possibilidade de crítica a esse processo presente na disciplina de sociologia, o que novamente põe em xeque a existência plena dos conteúdos de Ciência Política no Ensino Médio. A consequência é uma proposta neoliberal de interdisciplinaridade, que, aliada à tradição constituída tardiamente da disciplina de sociologia, relega a um grau de pequena importância os conteúdos de Ciência Política, afinal, a quem interessa o debate sobre democracia?

De forma coesa, uma série de movimentos políticos – tanto da esquerda quanto da direita política – estão interessados neste debate, que acontece primeiramente no campo simbólico. É possível perceber que, apesar de haver um significado “registrado” nos dicionários, a palavra Democracia por si só é uma amálgama de vários significados e contextos, que traz consigo muitos adjetivos. Diferentemente de outros modelos políticos, como Ditadura, Tirania, Monarquia (por exemplo), as experiências democráticas ao redor do planeta ultrapassam a ideia de “governo do povo”. Decorrente disso, e de uma forte operação de marketing político orquestrado pelos sujeitos ideologizados, há um fenômeno que entendemos por Polissemia Democrática. Ele é justamente o resultado dessa disputa simbólica, ocorrida primeiro no mercado simbólico da linguagem (BOURDIEU, 1998), que tensiona de maneira verbal e não-verbal não apenas a palavra, mas a própria democracia política no Brasil como um todo. Um dos objetivos desta disputa é justamente transformar, a partir de uma perspectiva ideologizante, a Educação a partir da descoordenação da disciplina de Ciência Política.

Todos esses contextos levam-nos a crer que o futuro da Ciência Política no Ensino Médio só pode ser garantido com legitimidade ao criar uma nova tradição de ensino, a partir de novas metodologias e processos, coordenando seus conteúdos em uma disciplina única. A institucionalização da Ciência Política não iria, no nosso entender, requerer uma desconfiguração da interdisciplinaridade com o qual ela é tratada, mas uma reorganização dessa metodologia, visando a necessidade de criar, para as próximas gerações, a cultura democrática necessária para garantir a sobrevivência de disciplinas como a Sociologia e seus objetivos educacionais e para além do âmbito educacional. Sua existência tira apenas da Sociologia a responsabilidade de analisar criticamente os fenômenos sociais e políticos, liberando espaço para que mais exercícios de estranhamento e naturalização possam ser trabalhados, e potencializaria dois objetivos que hoje fazem parte da disciplina de sociologia, mas são trabalhados em segundo plano: o letramento político e a construção de uma cultura democrática. A construção da identidade nacional vem por meio da educação, e é justamente com pressupostos factíveis, metodologicamente acertados, sociopoliticamente justificados e o fim das intermitências nas disciplinas de viés crítico que nossa sociedade pode reativar, a partir dos ambientes escolares, o sentimento de valorização da democracia e da coletividade.

O problema não será sanado com grandes reformas, nem com o surgimento de outras disciplinas e muito menos com o fim da interdisciplinaridade. O grande trunfo desse trabalho [a monografia] é mostrar que um possível enfrentamento pode estar diante de uma coordenação advinda de um projeto democrático de educação, construído a partir de um modelo real de participação e opinião dos sujeitos envolvidos no processo. A solução não passa simplesmente por “mais democracia” em razão de uma “ausência de democracia”, e sim pela definitiva entrada da Escola no campo de disputas simbólicas do significado de democracia, para contribuir ao Brasil e ao mundo com um modelo democrático inclusivo, plural, libertário, mas sobretudo nacional, trazendo a possibilidade de construir um país mais igualitário em oportunidades e possibilidades individuais e coletivas.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRASIL. Ministério da Educação. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Brasília, MEC, 2004.

 

______. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais. Brasília, MEC, 1996.

 

______. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília, MEC, 1999.

 

______. Base Nacional Curricular Comum. Ministério da Educação. Brasília, MEC, 2017.

 

BOURDIEU, Pierre. Economia das Trocas Linguísticas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.

 

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010

 

DAHL, Robert. Poliarquia: Participação e Oposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

 



[i] Mestrando em Sociologia Política (PPGSP-UENF) e Graduado em Ciências Sociais(UFF). email: emannuelsantana@id.uff.br

[ii] Este texto é parte do trabalho monográfico do autor, apresentado à banca em Julho de 2022, contando com alguns adendos fruto de sua pesquisa de Mestrado em Sociologia Política, em andamento.

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Legislativo conservador, sim. Mas o que isso significa?

 

Escrito por Vitor Vasquez[1]

Arquivo Agência Brasil


Após os resultados da última disputa para a Câmara dos Deputados a imprensa detectou a guinada conservadora do espectro político dos parlamentares eleitos. Nesse sentido, manchetes como o Congresso mais conservador dos últimos quarenta anos e avanço do perfil conservador de deputados e senadores tomaram os noticiários depois das eleições gerais de 2022. Mas, em termos de equilíbrio de força, o que essa escalada conservadora representa? Quanto esse cenário surpreende ou pode ser interpretado como continuidade de um processo que já vem em marcha? Há coerência eleitoral entre a eleição para o Legislativo e o voto para presidente da República? Nesse artigo lanço luz a essas questões descrevendo e comparando alguns padrões das últimas três eleições gerais ocorridas no Brasil (2014, 2018 e 2022). A ideia é problematizar um pouco as interpretações mais imediatistas e trazer algumas reflexões sobre o que isso significa em termos de comportamento eleitoral e de dinâmica partidária.

O primeiro esforço é para refrescar nossa memória e relembrar que já em 2014 tivemos os primeiros sinais de que uma onda conservadora estaria em marcha na política institucional brasileira. Não à toa, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) classificou o Congresso eleito à época como o mais conservador desde 1964. Portanto, mais do que análises alarmistas que inferem algo de excepcional no atual perfil político do Legislativo brasileiro, precisamos compreender que estamos diante de um processo de mais longo prazo, iniciado eleitoralmente pelo menos na disputa que ocorrera logo após as jornadas de junho de 2013. Assim, para ilustrar como esse processo se estabeleceu, separei a votação dos candidatos à Câmara dos Deputados de 2014 a 2022, segundo o espectro político do partido pelo qual cada candidato concorreu ao cargo. Para classificar o partido enquanto direita, centro ou esquerda, usei como referência o artigo de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023). A divisão proposta pelos autores, baseada em classificações feitas por especialistas, vai de 0 (mais à esquerda) a 10 (mais à direita). Partidos com média até 3,7 identifiquei como de esquerda; de 3,8 a 7,4 como de centro; e maior que 7,4 como de direita[2].

 

Votação: deputado federal por espectro ideológico do partido dos candidatos (2014-2022).


Fonte: elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

 

Observando a evolução do perfil ideológico do voto depositado aos candidatos à deputado federal entre 2014 e 2022 salta aos olhos o avanço da direita. Ou seja, o diagnóstico de um Legislativo conservador em 2022 deve levar em consideração um processo que vem em constante crescimento desde 2014. E, para explicar como isso ocorreu é preciso lembrar que a política é um jogo de ocupação de espaços, isto é, para que um espectro avance é necessário que outro recue, pois cada eleitor vota em somente um postulante a vaga na Câmara dos Deputados. Sob esta perspectiva, destaco que o espaço preenchido pela direita nesse período pertencia ao centro, e não à esquerda. Assim, abalado pela redução do poderio eleitoral principalmente de PSDB e MDB, o centro deixou de ser o espectro que mais atraia a preferência eleitoral nas disputas para deputado federal como fora em 2014 e, com menor margem, em 2018. Fato é que, em 2022, a direita assumiu a dianteira conquistando 46,5% dos votos recebidos por candidatos à Câmara dos Deputados. Complementarmente, a esquerda se manteve em terceiro lugar durante todos os anos observados, mas com pouca variação na porcentagem de votos recebidos.

Diante disso, faz sentido afirmar que houve polarização do eleitorado brasileiro recentemente, afinal, um deslocamento rumo aos pólos exige esvaziamento do centro, o que aconteceu na votação para a Câmara dos Deputados. Porém, tal deslocamento orientou-se quase exclusivamente à direita, considerando que a votação recebida por candidatos filiados a partidos de esquerda se manteve estável de 2014 a 2022. Isto posto, cabe agora analisar como a dinâmica observada se articulou com as disputas presidenciais.


Votação: presidente – 1º turno – por espectro ideológico do partido dos candidatos (2014-2022).

Fonte: elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

 

Antes de explorar as informações acima preciso fazer duas considerações. Em primeiro lugar, as eleições para presidente da República são distintas das para deputado federal, tanto pela diferença hierárquica que há entre os cargos quanto pelo método eleitoral em cada caso. Por um lado, isto faz com que a disputa presidencial receba mais atenção da opinião pública e do eleitor, pois a presidência é o principal cargo eleitoral do país; por outro, torna a distribuição de voto diferente em cada disputa, uma vez que a eleição para a Câmara dos Deputados é regida pelo voto proporcional e a para presidência pelo voto majoritário de dois turnos. Em segundo lugar, não há nenhuma garantia que um eleitor que votou em um candidato a deputado federal pertencente a um partido de um determinado espectro ideológico também o fará na disputa presidencial. Tais considerações não me impedem, no entanto, de esmiuçar os dados agregados e conjecturar algumas possibilidades a partir deles. Portanto, feitas as devidas ressalvas, sigo para as votações para presidente.

O perfil da votação em primeiro turno para presidência é semelhante ao observado na disputa para deputado federal durante o mesmo período. Os votos de direita cresceram, os de centro caíram e os de esquerda apresentaram estabilidade. Ou seja, novamente o esvaziamento do centro culminou no preenchimento da direita. Em outras palavras, houve um deslocamento da preferência política dos eleitores brasileiro do centro para a direita na disputa presidencial. Inclusive, a soma dos votos recebidos por candidatos de centro no primeiro turno da disputa presidencial de 2014 chegou a 55,5%, alavancados pelas candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB). Contudo, em 2022 essa votação representou apenas 7,3% dos votos válidos.

Minha intenção ao apresentar essas informações foi indicar que não devemos olhar a atual composição predominantemente conservadora do Legislativo brasileiro com muita surpresa. Pelo contrário, trata-se de um processo iniciado pelo menos em 2014. O que, por outro lado, demanda reflexão é se tal tendência seguirá para uma estabilidade ou não. De todo modo, a disputa até aqui concentrou-se principalmente entre direita e centro. Afinal, ao passo que a manifestação de voto à direita cresceu, o voto dado ao centro caiu e o depositado à esquerda manteve-se relativamente estável. Esse é um aspecto relevante, pois parecia que junho de 2013 e a lava-jato afetariam negativamente a esquerda, sobretudo o PT. Porém, quem mais sentiu os efeitos foram os partidos de centro, especialmente PSDB e MDB. Partidos que até outrora eram protagonistas na vida política brasileira e, recentemente, passaram a compartilhar a preferência eleitoral com outras forças mais à direita como PP, PL, União Brasil e Republicanos. E, como política é uma luta por espaços, é fundamental ao centro identificar quem é seu adversário mais direto. Em uma palavra: talvez tenha passado a hora de refletir criticamente sobre a possibilidade de uma terceira via.

Outro aspecto que os dados exibidos sugerem é que há coerência entre os padrões de votação observados comparando as eleições para a Câmara com as para presidência. Isto é relevante porque desafia o senso comum de que o eleitor brasileiro não dá a devida atenção à decisão do voto. Assim, ainda que tenhamos muitos partidos políticos disponíveis e que as relações eleitor-candidato perpassem questões personalistas, as preferências políticas também são consideradas no momento de decidir em quem votar. Em suma, é preciso levar o eleitor a sério.

 


[1] Professor Assistente da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

[2] Esquerda: PSTU, PCO, PCB, PSOL, PCdoB e PT; Centro: PDT, PSB, Rede, Cidadania, PV, PTB, Avante, Solidariedade, PMN, PMB, PHS, MDB, PSD, PSDB, Podemos e PPL; e Direita: PRTB, Pros, PRP, PRB, PL, PTC, DC, Novo, PP, PSC, Patriota, DEM, PSL e União Brasil.


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Tudo está em falta: mobilizações de moradores em um bairro cigano na Catalunha

                                                       Escrito e fotografado por Nathalia Ferreira Gonçales[i]



Este ensaio fotográfico apresenta as mobilizações dos moradores de Font de la Pólvora, zona leste da cidade de Girona, comunidade da Catalunha, em decorrência dos sucessivos cortes de luz que estão acontecendo há alguns anos no bairro. A institucionalização dos processos de precarização desse território, marcado desde sua constituição por narrativas de marginalização e abandono, acentua uma política de escassez histórica do Estado espanhol e catalão em torno da população residente, majoritariamente de etnia cigana, e agrava o imaginário de contravenção sobre práticas e condutas ali inscritas.

Através de declarações públicas dos representantes políticos elaboradas em reuniões, assembleias e coletivas de imprensa, é flagrante a constante tentativa de criminalização do bairro em sua totalidade, como se fosse possível instituir uma dimensão existencial propensa a condutas desviantes e práticas de infração que seriam a causa última da interrupção prolongada de energia. Ao longo dos problemas que emergem na vida do bairro, estes modos de habitar a falta vão compondo um campo de representações sobre inscrições de vulnerabilidade e reinvenções de possibilidades de vida às margens do Estado.

As batidas policiais nos apartamentos do bairro vêm de encontro ao discurso contundente, que pude escutar repetidas vezes no falatório cotidiano dos moradores, proferido pela prefeita da cidade de Girona, Marta Madrenas, ao atribuir os problemas no fornecimento de energia ao alto nível de fraudes elétricas e ao cultivo de drogas. Em incontáveis entrevistas públicas, a prefeita definiu os cortes em função da criminalidade espraiada por aquele bairro. “– Delincuencia!” foi o adjetivo usado pela representante política para enquadrar a suposta conduta desviante dos moradores de Font de la Pólvora.

Certa vez uma moradora proferiu que a vida às escuras só entende quem a vive. Somente a experiência pode conferir a dimensão material de um cotidiano interrompido pelos cortes, pela ausência de tudo aquilo que deriva da eletricidade no espaço doméstico. A gestão do cuidado, da comida, da limpeza, do consumo de internet, de gestos banais de conforto e aconchego, ações corriqueiras, quase mecânicas, que ficam suspensas quando na falta do que se poderia esperar ou prever para o dia a dia de um lar. Amanhecer sem luz e ir dormir sem luz. É através desse intervalo capaz de cindir a vida ao meio que as manifestações dos moradores de Font de la Pólvora irrompem como rotas para contornar os implacáveis mecanismos de rebaixamento e precarização que circunscrevem aquele território e as pessoas que ali habitam.

Omissão, inação, descaso, abandono. São muitas as formas pelas quais os moradores nomeiam as “ausências ativas” (Fernandes, 2020) da administração pública. Da mesma maneira, foram muitas as manifestações públicas que transcorreram, movidas por essa força coletiva de transformar a realidade dada, impulsionadas pela necessidade de criar outras possibilidades para além da marginalização social. As inúmeras incursões por instâncias burocráticas, incluindo reuniões e plenárias, indicam um conjunto de pistas para “sobreviver na adversidade” (Hirata, 2018). De fato, os moradores aprendem a transitar por espaços de negociação, reivindicar medidas de acordo com os termos da lei, tecer comentários irônicos e sarcásticos, se revoltar quando possível, calar quando necessário. Essas pistas são compostas por um arranjo de universos embaralhados que permitem acionar diferentes repertórios de acordo com o contexto em jogo. Os cantos e gritos que ecoam pelas ruas pitoresca de Girona insistem sobre aquilo que parece inaudível aos ouvidos da cidade e, uma vez mais, os moradores repetem em coro: nós não somos delinquentes.

 

Referências bibliográficas:

FERNANDES, Camila. A força da ausência. A falta dos homens e do “Estado” na vida de mulheres moradoras de favela. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, Rio de Janeiro, n.36, pp. 206-230, dez. 2020.

HIRATA, Daniel. Sobreviver na adversidade: mercados e formas de vida. São Carlos: EdUFSCar, 2018.

 



[i] Professora substituta do Departamento de Ciências Sociais de Campos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutoranda e mestre no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).