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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Diálogos em Memórias com Andréa Lúcia da Silva de Paiva

 

Fonte: Arquivo pessoal de Andréa Paiva

Entrevistada: Profª Drª Andréa Lúcia da Silva de Paiva[1]

Thaymara Assis: Professora, qual é a sua principal memória da UFF Campos? Quando você pensa em UFF Campos, o que vem em sua lembrança?

Andréa Paiva: O que mais aparece em minhas lembranças são as memórias geracionais. Eu acho que é muito difícil responder essa pergunta, porque são memórias que se desdobram em muitas trocas de experiência. [...]  - Quando eu chego na Universidade Federal Fluminense (UFF), as relações são diferentes daquelas que ocorreram no meu tempo de graduação. [...] . A minha relação de trabalho é mais ampla. Nesse sentido, não enxergo apenas a minha relação com os estudantes, mas com um conjunto composto por alunos, seguranças, motoristas e o pessoal da limpeza, por exemplo. A gente aprende muito com esse conjunto de experiências e esses vários papéis sociais que ocupam a universidade.  Além disso, as memórias relacionadas a UFF Campos não se restringem apenas ao campus, ela é comunitária também. A forma como a comunidade percebe a UFF, ou seja, no aspecto negativo ou positivo. Isso é o que mais me chama a atenção. 

Sua pergunta é difícil porque a memória remete a um conjunto de relações: memória-trabalho e memória-relações para além da instituição, mas que também fazem parte dela. Eu trabalho com o conceito de memória e sempre discuto que a memória não é só teórica. Ela também se coloca como metodologia quando está sendo construída por nós. A memória não é planejada, ou seja, não se faz memória intencionalmente, ela se configura independente de minhas vontades. As memórias vão se constituindo através de muitas marcas. Quando a gente usa a palavra “marcas”, as pessoas associam ao estigma, mas não é necessariamente uma questão relacionada a esse conceito. É uma questão de momento e de contexto. Por exemplo, agora a memória que me surgiu com a sua pergunta é do meu primeiro orientando David, que veio a falecer depois. Lembro-me da desconstrução que as Ciências Sociais causaram nele com o estranhamento e a desnaturalização. Ele foi para mim uma peça-chave disso. Ele era brincalhão e fazia piadas relacionadas à questão do senso comum. Depois, ele foi cada vez mais se tornando alguém criticamente reflexivo. É curioso como a gente vai colocando metas, carinho, marcas e desafios também. A UFF me ensinou e vem me ensinando esse conjunto de sentimentos que constituem as nossas narrativas de memórias, as nossas marcas pessoais e coletivas.

Fonte: Arquivo pessoal de Andréa Paiva

Nós brincamos entre os professores que quando você entra para a universidade você vai fazer ensino, pesquisa e extensão, mas há o quarto item, que é a gestão. Em relação ao ensino, a questão de você ir fazendo os seus planejamentos e suas aulas através de muitas trocas foi muito interessante porque, apesar de ter como referência meus antigos professores na UFRJ, eu achava que a postura de um professor universitário era um pouco mais reservada. De uma certa forma, é! Porém, na UFF Campos é diferente! Você se sente mais à vontade para passar seus ensinamentos e conhecimentos através de um diálogo mais amplo com os alunos que se envolvem e comentam nas aulas. Essa prática vem da época em que eu era professora do ensino fundamental e médio. É um exercício grande dentro das Ciências Sociais a tentativa de colocar a teoria na prática. Eu posso falar que o fato de eu ter sido professora do Ensino Médio e Fundamental, onde eu ministrava Sociologia e Filosofia na cidade do Rio de Janeiro, nos colégios particulares e públicos, me obrigou a pensar teorias, temas e conceitos, mas também a prática. Afinal, como apresentar um conteúdo que faça sentido para aqueles alunos? Caso contrário, ficamos em uma esfera de conhecimento muito fechada dentro do nosso próprio conhecimento, talvez, até muito “elitizado” quando pensamos que esse conhecimento se restringe a um pequeno grupo. Eu tinha alunos de Sociologia e Filosofia desde a 5ª série até o Ensino Médio. Então, quando venho para a UFF Campos, eu trago um pouco dessa experiência. Considero isso um grande ganho, no sentido de colocar à frente de técnicas de ensino, por exemplo, a possibilidade de usar jogos para discutir cotas em sala de aula. Isso foi me aprimorando e na universidade, por conta da dedicação exclusiva, encontro mais possibilidades de fazer essa imersão, essa imaginação sociológica, política e antropológica, de fluir. 

A experiência de quando vou para a pesquisa também é fantástica, pois é um diferencial dentro da minha trajetória: desenvolver uma pesquisa com os estudantes, inseri-los nesse meio, aprender e perceber a importância de nós cientistas e professores na sociedade... Quando o aluno recebe uma bolsa, por exemplo, através do trabalho que você coordena, isso tem um valor e peso muito grande na vida daquele estudante. Tive a experiência de ter estudantes de todos os estágios e níveis e o envolvimento deles, nosso local como pesquisadores perante à sociedade tem um grande valor para mim.

Quanto ao projeto de extensão, eu faço parte junto com a professora Geovana do Motirõ Nhãdereko (Grupo de Pesquisa em Memória e Cultura). O projeto começou em 2013 e foi fundado através de ideais em comum. O nome do projeto foi dado por um indígena que fez um ritual muito interessante aberto para todos e que chamou muito a atenção da comunidade externa da UFF. Neste dia, me lembro que tínhamos até crianças presentes. Durante o evento, enquanto (o indígena) Werá Djekupe discursava, as pessoas ficaram muito empolgadas e insistiam em pedir para tirar fotos com ele vestido com seus adereços, como se o valor do seu discurso só fosse válido quando ele estava caracterizado como um indígena. A partir daí, vimos os desafios que enfrentaríamos e a importância de desnaturalizar e desmistificar certos termos e conceitos. A Geovana sempre ressalta em nossas atividades, principalmente, a pertinência da causa indígena. Eu também me debruço nas relações raciais, sobretudo, na questão negra. Esse trabalho de desnaturalizar preconceitos é também necessário entre os estudantes. Me lembro que alguns alunos usavam, por exemplo, a palavra “macumba” de modo pejorativo, sinalizando um problema que envolvia tanto a comunidade externa como a comunidade acadêmica da UFF Campos. Essa é a prova que precisamos tocar adiante os projetos de extensão. Hoje, com a Universidade para a Terceira Idade (UNITI), percebo ainda mais essa força da relação entre universidade e comunidade.

Trabalhar com a gestão também foi um grande marco para mim, porque nunca havia sido coordenadora e passei a ser do curso de Licenciatura em Ciências Sociais. Neste momento, Geovana estava como a minha vice. E foi impressionante como percebi a importância de trabalhar na coordenação para um professor universitário. O que me chamava atenção era a proximidade com os alunos e a capacidade de ouvi-los contribuir no plano de estudo, levar propostas e aprender a coordenar reuniões, principalmente, porque sempre fui muito tímida. Na verdade, ainda me vejo no processo de melhorar essa questão, especificamente por conta do ensino remoto como consequência da pandemia. Quando você dá aula, há uma certa transformação e é um bom exercício para a timidez. Como coordenadora, na tarefa de chefiar reuniões também me vi exercitando esse lado mais ativo.... Uma das memórias mais marcantes desse período foi a tarefa de pensar as políticas públicas educacionais, não apenas como teoria, como também em sua prática. Ou seja, lendo, oferecendo uma reflexão para a melhoria dessas políticas e formulando novas propostas. Nesta ocasião, as professoras Gabriela, Érica, Geovana e eu fizemos a primeira reforma curricular do nosso curso. Foi também quando continuamos participando junto ao Colegiado Geral de Licenciaturas de leituras documentais, propostas, arranjos, formas de pensar e inserir as políticas públicas educacionais. Essa parte para mim, junto com a questão de ouvir o estudante que aparecia na coordenação, foi um grande “samba”. Foi uma grande escola para mim, como se fosse mais um “abre alas” dentro desse conjunto de memórias e relações, que dá um samba com um enredo bom, uma alegria boa, principalmente, quando você olha para trás e atravessa a avenida e escuta os sons das memórias acumuladas. 

A questão da memória na nossa área de Ciências Sociais é a sua própria força de humanização. A memória não dada (mas construída coletivamente)! Gostaria de agradecer a contribuição do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo em reunir essas tantas memórias que colecionamos. Essas memórias não estão no passado, elas estão vivas e continuamente são ressignificadas no nosso presente, e sou grata por contribuir com essa narrativa.

 



[1]  Graduada em Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre pelo Programa em Pós-Graduação em Memória e Documento da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É coordenadora do Programa de Extensão Universidade para Terceira Idade (UNITI) da UFF/Campos. Foi coordenadora da Residência Pedagógica, Programa de Formação à Docência, entre agosto de 2018 a janeiro de 2020. Foi coordenadora do curso de Ciências Sociais - Licenciatura (2014-2018). É professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes. Coordena o Grupo de Pesquisa em Memória e Cultura Motirõ Nhãdereko. É membro efetivo do Laboratório de Pesquisa em Ensino de Ciências Sociais (LAPECS).

 


quarta-feira, 30 de agosto de 2023

DIÁLOGOS DE MEMÓRIAS

 

Apresentação Diálogos de Memórias

 

É com grande satisfação que apresentamos a ação extensionista Diálogos de Memórias, parte integrante do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo, coordenado pelos professores Mariele Troiano e Ricardo Bruno da Silva Ferreira, docentes da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais de Campos, do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense (COC-ESR-UFF).

Originalmente, o projeto Diálogos do Fim do Mundo consistia em uma plataforma virtual, em formato de blog, destinada à divulgação científica de artigos e resenhas na área de Ciências Sociais. Diante de demandas geradas a partir do ensino remoto, o projeto passou a abarcar progressivamente novas ações extensionistas, como a realização de entrevistas com renomados pesquisadores e intelectuais da área de Ciências Sociais, particularmente, da Ciência Política.

Desde o ano de 2022, os coordenadores do projeto se voltaram para uma nova empreitada: a preservação e divulgação das memórias dos professores que integram atualmente o Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos. Foi assim gestada a ação extensionista Diálogos de Memórias, que busca preservar as memórias dos docentes do COC desde o seu ingresso na UFF.

No contexto da comemoração dos 60 anos da UFF Campos, ocorrida em 2022, e dos 15 anos do Departamento de Ciências Sociais, que será comemorado em 2024, esta iniciativa visa preservar e compartilhar as memórias dos docentes que moldaram a história e a trajetória institucional da Universidade Federal Fluminense no município de Campos dos Goytacazes. Mais do que um simples olhar retrospectivo, Diálogos de Memórias emerge como um esforço conjunto para capturar a contribuição singular de cada um desses profissionais ao longo do tempo.

A relevância de Diálogos de Memórias transcende a mera celebração dos fatos passados ao propor uma relação intrínseca com os projetos futuros e a construção de uma história das ideias de um grupo de docentes (ROSANVALLON, 1995). Assim, experiências e expectativas profissionais e pessoais se embaralham compondo uma categoria meta-histórica que muito favorece a compreensão do tempo-vivido, diferente de quando é percebido isoladamente. Dessa forma, os múltiplos espaços de experiências expostos nos conteúdos das entrevistas conjugam com outros tantos horizontes de expectativas ainda não tão organizados e estabelecidos (KOSELLECK, 1979). As experiências que muito contribuíram para moldar o Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos atualmente, bem como o estabelecimento de suas relações dentro do campus de Campos dos Goytacazes, também contribuem para o desenho dos projetos futuros e objetivos a serem alcançados, sobretudo, quando é manifesta a menção de um espaço físico em construção. Cada relato é uma janela para o passado, iluminando a trajetória da instituição e lançando luz sobre os esforços incansáveis que resultaram nas realizações que celebramos hoje.

Gostaríamos de expressar nossa sincera gratidão aos professores do Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos que participaram ativamente deste projeto, compartilhando suas valiosas memórias. Aproveitamos para convidar a comunidade acadêmica, em especial, os estudantes, a se envolverem nesse conjunto de memórias. Através da leitura e reflexão sobre esses relatos, desejamos que todos possam obter um entendimento mais profundo do legado e da trajetória do Departamento de Ciências Sociais da UFF Campos, inspirando-nos a continuar construindo um futuro cada vez mais brilhante.  

Equipe do Projeto Diálogos de Memórias:

Mariele Troiano (coordenadora)

Ricardo Bruno da Silva Ferreira (coordenador)

Vitória Ribeiro de Azevedo Dias (bolsista de extensão 2023)

Beatriz Siqueira Rodrigues (aluna voluntária)

Thaymara Assis de Lima (bolsista de extensão 2022)

Referências bibliográficas:


KOSELLECK, R. Uma História dos Conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, n.10, 1992, p.134-146.

ROSAVALLON, Pierre. “Por uma História Conceitual do Político”. Revista Brasileira

de História. São Paulo, 30, 1995, p.9-20.


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Livro gratuito disponível para download

 



É com satisfação que divulgamos o e-book " Debates e Agendas em Ciências Sociais : diálogos em tempos de pandemia", organizado pelos professores Mariele Troiano (UFF) e Ricardo Bruno da Silva Ferreira (UFF). A obra tem por objetivo divulgar o conhecimento científico em Ciência Política a partir de um contexto marcado pelos dilemas da pandemia. A obra conta conta com 8 entrevistas de professores e pesquisadores renomados na área de Ciências Sociais: Mauricio Vieira Martins (UFF); Maria do Socorro Braga (UFSCAR); Bárbara Breder Machado (UFF) e Flávia Mendes Ferreira (SEEDUC-RJ); Dalton Rodrigues Franco (UNESA); Rafael Gonçalves Gumiero (UNIFESSPA), Carlos Henrique Aguiar Serra (UFF), Aline Vanessa Zambello (UNICAMP) e Lorena Guadalupe Barberia (USP).

 

Resultado do projeto de extensão Diálogos do Fim do Mundo, a obra pode ser adquirida gratuitamente pelo link:

https://editoratelha.com.br/product/debates-e-agendas-em-ciencias-sociais-dialogos-em-tempos-de-pandemia/

 

Façam uma boa leitura!


sexta-feira, 21 de julho de 2023

A descoordenação da disciplina de Sociologia e a Polissemia Democrática: um fenômeno de causa e efeito.

Escrito por Emannuel Santana[i]

 

 A condição que se insere a disciplina de sociologia reflete na maneira como a Ciência se desenvolveu como campo de pensamento no Brasil[ii]. Seu caminho é perpassado por uma série de intercorrências ao longo dos séculos XX e XIX que justificam a intermitência no processo de institucionalização a que ela foi condicionada. Essa intermitência tem, como observamos, um grau elevado de importância na formação da tradição do ensino de Sociologia e, por conseguinte, no ensino de Ciência Política.

É possível identificar um processo descoordenado para que essa intermitência se mantivesse. As descontinuidades são inúmeras, por exemplo, durante a Ditadura Militar, houve uma descontinuidade da disciplina de sociologia em sala de aula, somada a uma ruptura no modo que os conteúdos de sociologia se desenvolviam. Em meados dos anos 1960, enquanto as principais escolas de Sociologia estavam se desenvolvendo, a presença de uma disciplina que abordasse de maneira científica seus conteúdos era mitigada. Outro exemplo é o processo da Reforma do Ensino Médio que agregou o caráter interdisciplinar à disciplina de Sociologia e, posteriormente, opcional. Logo, sob a ótica da trajetória histórica da disciplina nos currículos escolares é possível apontar para uma descoordenação da própria Sociologia de se apresentar enquanto uma área múltipla, com objetivos pertinentes para a produção de conhecimento, bem como transformação da sociedade, fazendo uso, inclusive, dos objetivos específicos das áreas adjacentes como Ciência Política e Antropologia.

Essa descoordenação pode ser percebida já nas legislações, que abordam em apenas uma disciplina temas de três áreas: Ciência Política, Sociologia e Antropologia, ou seja, sem se ater às especificidades e como cada área pode contribuir com a sociedade de maneira específica. Na prática, a descoordenação se apresenta na formação dos profissionais de educação das Ciências Sociais, que também é, por sua vez, interdisciplinar. Esse itinerário formativo é positivo para a formação desses profissionais. Não se trata aqui de uma crítica a interdisciplinaridade. Todavia, é possível notar que os currículos mínimos da disciplina de sociologia ao não abordarem de maneira específica os critérios analíticos da Ciência Política, permitindo que os conteúdos dessa ciência sejam trabalhados de maneira transversal e até mesmo por professores de outras áreas das ciências humanas, favorecem ainda mais a manutenção de um processo fragmentado de institucionalização da disciplina. Aliás, essa prática legislativa de apresentar a Sociologia com a representante das Ciências Sociais mais enfraquece do que favorece conceitos que fundamentam a construção dos objetivos práticos da disciplina - seja o da apreensão e prática da cidadania ou a produção de estranhamento e desnaturalização. Nesse sentido, nas legislações PCN, PCN+ e OCNem a interdisciplinaridade pode ser analisada positivamente por integrar as disciplinas de Ciências Humanas em um objetivo comum e favorecer o desenvolvimento de técnicas práticas para os jovens viverem e se relacionarem em sociedade. Mas elas também podem ser avaliadas negativamente ao não evidenciarem os objetivos centrais dos conteúdos e conceitos de Ciência Política, sendo acionados apenas para justificar os objetivos comuns das áreas.

A análise da BNCC leva-nos a uma reflexão sobre todo o processo de construção teórica e práxis das normas educacionais. Se podemos argumentar que a Reforma do Ensino Médio é reflexo de um projeto educacional de cunho neoliberal, também podemos afirmar que conceitos de poder e formação de Estado deixam de ser cada vez mais relevantes diante de perspectivas individualistas e meritocráticas, permitindo à sociedade se construir e se fortalecer de maneira desigual. A fim de perpetuar essas desigualdades, a justificativa da visão neoliberal para reformar o Ensino Médio é justamente a de garantir a liberdade, fantasiosa, de escolha. Não é sem razão a necessidade de diluir a possibilidade de crítica a esse processo presente na disciplina de sociologia, o que novamente põe em xeque a existência plena dos conteúdos de Ciência Política no Ensino Médio. A consequência é uma proposta neoliberal de interdisciplinaridade, que, aliada à tradição constituída tardiamente da disciplina de sociologia, relega a um grau de pequena importância os conteúdos de Ciência Política, afinal, a quem interessa o debate sobre democracia?

De forma coesa, uma série de movimentos políticos – tanto da esquerda quanto da direita política – estão interessados neste debate, que acontece primeiramente no campo simbólico. É possível perceber que, apesar de haver um significado “registrado” nos dicionários, a palavra Democracia por si só é uma amálgama de vários significados e contextos, que traz consigo muitos adjetivos. Diferentemente de outros modelos políticos, como Ditadura, Tirania, Monarquia (por exemplo), as experiências democráticas ao redor do planeta ultrapassam a ideia de “governo do povo”. Decorrente disso, e de uma forte operação de marketing político orquestrado pelos sujeitos ideologizados, há um fenômeno que entendemos por Polissemia Democrática. Ele é justamente o resultado dessa disputa simbólica, ocorrida primeiro no mercado simbólico da linguagem (BOURDIEU, 1998), que tensiona de maneira verbal e não-verbal não apenas a palavra, mas a própria democracia política no Brasil como um todo. Um dos objetivos desta disputa é justamente transformar, a partir de uma perspectiva ideologizante, a Educação a partir da descoordenação da disciplina de Ciência Política.

Todos esses contextos levam-nos a crer que o futuro da Ciência Política no Ensino Médio só pode ser garantido com legitimidade ao criar uma nova tradição de ensino, a partir de novas metodologias e processos, coordenando seus conteúdos em uma disciplina única. A institucionalização da Ciência Política não iria, no nosso entender, requerer uma desconfiguração da interdisciplinaridade com o qual ela é tratada, mas uma reorganização dessa metodologia, visando a necessidade de criar, para as próximas gerações, a cultura democrática necessária para garantir a sobrevivência de disciplinas como a Sociologia e seus objetivos educacionais e para além do âmbito educacional. Sua existência tira apenas da Sociologia a responsabilidade de analisar criticamente os fenômenos sociais e políticos, liberando espaço para que mais exercícios de estranhamento e naturalização possam ser trabalhados, e potencializaria dois objetivos que hoje fazem parte da disciplina de sociologia, mas são trabalhados em segundo plano: o letramento político e a construção de uma cultura democrática. A construção da identidade nacional vem por meio da educação, e é justamente com pressupostos factíveis, metodologicamente acertados, sociopoliticamente justificados e o fim das intermitências nas disciplinas de viés crítico que nossa sociedade pode reativar, a partir dos ambientes escolares, o sentimento de valorização da democracia e da coletividade.

O problema não será sanado com grandes reformas, nem com o surgimento de outras disciplinas e muito menos com o fim da interdisciplinaridade. O grande trunfo desse trabalho [a monografia] é mostrar que um possível enfrentamento pode estar diante de uma coordenação advinda de um projeto democrático de educação, construído a partir de um modelo real de participação e opinião dos sujeitos envolvidos no processo. A solução não passa simplesmente por “mais democracia” em razão de uma “ausência de democracia”, e sim pela definitiva entrada da Escola no campo de disputas simbólicas do significado de democracia, para contribuir ao Brasil e ao mundo com um modelo democrático inclusivo, plural, libertário, mas sobretudo nacional, trazendo a possibilidade de construir um país mais igualitário em oportunidades e possibilidades individuais e coletivas.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRASIL. Ministério da Educação. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Brasília, MEC, 2004.

 

______. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais. Brasília, MEC, 1996.

 

______. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília, MEC, 1999.

 

______. Base Nacional Curricular Comum. Ministério da Educação. Brasília, MEC, 2017.

 

BOURDIEU, Pierre. Economia das Trocas Linguísticas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.

 

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010

 

DAHL, Robert. Poliarquia: Participação e Oposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

 



[i] Mestrando em Sociologia Política (PPGSP-UENF) e Graduado em Ciências Sociais(UFF). email: emannuelsantana@id.uff.br

[ii] Este texto é parte do trabalho monográfico do autor, apresentado à banca em Julho de 2022, contando com alguns adendos fruto de sua pesquisa de Mestrado em Sociologia Política, em andamento.

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Legislativo conservador, sim. Mas o que isso significa?

 

Escrito por Vitor Vasquez[1]

Arquivo Agência Brasil


Após os resultados da última disputa para a Câmara dos Deputados a imprensa detectou a guinada conservadora do espectro político dos parlamentares eleitos. Nesse sentido, manchetes como o Congresso mais conservador dos últimos quarenta anos e avanço do perfil conservador de deputados e senadores tomaram os noticiários depois das eleições gerais de 2022. Mas, em termos de equilíbrio de força, o que essa escalada conservadora representa? Quanto esse cenário surpreende ou pode ser interpretado como continuidade de um processo que já vem em marcha? Há coerência eleitoral entre a eleição para o Legislativo e o voto para presidente da República? Nesse artigo lanço luz a essas questões descrevendo e comparando alguns padrões das últimas três eleições gerais ocorridas no Brasil (2014, 2018 e 2022). A ideia é problematizar um pouco as interpretações mais imediatistas e trazer algumas reflexões sobre o que isso significa em termos de comportamento eleitoral e de dinâmica partidária.

O primeiro esforço é para refrescar nossa memória e relembrar que já em 2014 tivemos os primeiros sinais de que uma onda conservadora estaria em marcha na política institucional brasileira. Não à toa, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) classificou o Congresso eleito à época como o mais conservador desde 1964. Portanto, mais do que análises alarmistas que inferem algo de excepcional no atual perfil político do Legislativo brasileiro, precisamos compreender que estamos diante de um processo de mais longo prazo, iniciado eleitoralmente pelo menos na disputa que ocorrera logo após as jornadas de junho de 2013. Assim, para ilustrar como esse processo se estabeleceu, separei a votação dos candidatos à Câmara dos Deputados de 2014 a 2022, segundo o espectro político do partido pelo qual cada candidato concorreu ao cargo. Para classificar o partido enquanto direita, centro ou esquerda, usei como referência o artigo de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023). A divisão proposta pelos autores, baseada em classificações feitas por especialistas, vai de 0 (mais à esquerda) a 10 (mais à direita). Partidos com média até 3,7 identifiquei como de esquerda; de 3,8 a 7,4 como de centro; e maior que 7,4 como de direita[2].

 

Votação: deputado federal por espectro ideológico do partido dos candidatos (2014-2022).


Fonte: elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

 

Observando a evolução do perfil ideológico do voto depositado aos candidatos à deputado federal entre 2014 e 2022 salta aos olhos o avanço da direita. Ou seja, o diagnóstico de um Legislativo conservador em 2022 deve levar em consideração um processo que vem em constante crescimento desde 2014. E, para explicar como isso ocorreu é preciso lembrar que a política é um jogo de ocupação de espaços, isto é, para que um espectro avance é necessário que outro recue, pois cada eleitor vota em somente um postulante a vaga na Câmara dos Deputados. Sob esta perspectiva, destaco que o espaço preenchido pela direita nesse período pertencia ao centro, e não à esquerda. Assim, abalado pela redução do poderio eleitoral principalmente de PSDB e MDB, o centro deixou de ser o espectro que mais atraia a preferência eleitoral nas disputas para deputado federal como fora em 2014 e, com menor margem, em 2018. Fato é que, em 2022, a direita assumiu a dianteira conquistando 46,5% dos votos recebidos por candidatos à Câmara dos Deputados. Complementarmente, a esquerda se manteve em terceiro lugar durante todos os anos observados, mas com pouca variação na porcentagem de votos recebidos.

Diante disso, faz sentido afirmar que houve polarização do eleitorado brasileiro recentemente, afinal, um deslocamento rumo aos pólos exige esvaziamento do centro, o que aconteceu na votação para a Câmara dos Deputados. Porém, tal deslocamento orientou-se quase exclusivamente à direita, considerando que a votação recebida por candidatos filiados a partidos de esquerda se manteve estável de 2014 a 2022. Isto posto, cabe agora analisar como a dinâmica observada se articulou com as disputas presidenciais.


Votação: presidente – 1º turno – por espectro ideológico do partido dos candidatos (2014-2022).

Fonte: elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

 

Antes de explorar as informações acima preciso fazer duas considerações. Em primeiro lugar, as eleições para presidente da República são distintas das para deputado federal, tanto pela diferença hierárquica que há entre os cargos quanto pelo método eleitoral em cada caso. Por um lado, isto faz com que a disputa presidencial receba mais atenção da opinião pública e do eleitor, pois a presidência é o principal cargo eleitoral do país; por outro, torna a distribuição de voto diferente em cada disputa, uma vez que a eleição para a Câmara dos Deputados é regida pelo voto proporcional e a para presidência pelo voto majoritário de dois turnos. Em segundo lugar, não há nenhuma garantia que um eleitor que votou em um candidato a deputado federal pertencente a um partido de um determinado espectro ideológico também o fará na disputa presidencial. Tais considerações não me impedem, no entanto, de esmiuçar os dados agregados e conjecturar algumas possibilidades a partir deles. Portanto, feitas as devidas ressalvas, sigo para as votações para presidente.

O perfil da votação em primeiro turno para presidência é semelhante ao observado na disputa para deputado federal durante o mesmo período. Os votos de direita cresceram, os de centro caíram e os de esquerda apresentaram estabilidade. Ou seja, novamente o esvaziamento do centro culminou no preenchimento da direita. Em outras palavras, houve um deslocamento da preferência política dos eleitores brasileiro do centro para a direita na disputa presidencial. Inclusive, a soma dos votos recebidos por candidatos de centro no primeiro turno da disputa presidencial de 2014 chegou a 55,5%, alavancados pelas candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB). Contudo, em 2022 essa votação representou apenas 7,3% dos votos válidos.

Minha intenção ao apresentar essas informações foi indicar que não devemos olhar a atual composição predominantemente conservadora do Legislativo brasileiro com muita surpresa. Pelo contrário, trata-se de um processo iniciado pelo menos em 2014. O que, por outro lado, demanda reflexão é se tal tendência seguirá para uma estabilidade ou não. De todo modo, a disputa até aqui concentrou-se principalmente entre direita e centro. Afinal, ao passo que a manifestação de voto à direita cresceu, o voto dado ao centro caiu e o depositado à esquerda manteve-se relativamente estável. Esse é um aspecto relevante, pois parecia que junho de 2013 e a lava-jato afetariam negativamente a esquerda, sobretudo o PT. Porém, quem mais sentiu os efeitos foram os partidos de centro, especialmente PSDB e MDB. Partidos que até outrora eram protagonistas na vida política brasileira e, recentemente, passaram a compartilhar a preferência eleitoral com outras forças mais à direita como PP, PL, União Brasil e Republicanos. E, como política é uma luta por espaços, é fundamental ao centro identificar quem é seu adversário mais direto. Em uma palavra: talvez tenha passado a hora de refletir criticamente sobre a possibilidade de uma terceira via.

Outro aspecto que os dados exibidos sugerem é que há coerência entre os padrões de votação observados comparando as eleições para a Câmara com as para presidência. Isto é relevante porque desafia o senso comum de que o eleitor brasileiro não dá a devida atenção à decisão do voto. Assim, ainda que tenhamos muitos partidos políticos disponíveis e que as relações eleitor-candidato perpassem questões personalistas, as preferências políticas também são consideradas no momento de decidir em quem votar. Em suma, é preciso levar o eleitor a sério.

 


[1] Professor Assistente da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

[2] Esquerda: PSTU, PCO, PCB, PSOL, PCdoB e PT; Centro: PDT, PSB, Rede, Cidadania, PV, PTB, Avante, Solidariedade, PMN, PMB, PHS, MDB, PSD, PSDB, Podemos e PPL; e Direita: PRTB, Pros, PRP, PRB, PL, PTC, DC, Novo, PP, PSC, Patriota, DEM, PSL e União Brasil.


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Tudo está em falta: mobilizações de moradores em um bairro cigano na Catalunha

                                                       Escrito e fotografado por Nathalia Ferreira Gonçales[i]



Este ensaio fotográfico apresenta as mobilizações dos moradores de Font de la Pólvora, zona leste da cidade de Girona, comunidade da Catalunha, em decorrência dos sucessivos cortes de luz que estão acontecendo há alguns anos no bairro. A institucionalização dos processos de precarização desse território, marcado desde sua constituição por narrativas de marginalização e abandono, acentua uma política de escassez histórica do Estado espanhol e catalão em torno da população residente, majoritariamente de etnia cigana, e agrava o imaginário de contravenção sobre práticas e condutas ali inscritas.

Através de declarações públicas dos representantes políticos elaboradas em reuniões, assembleias e coletivas de imprensa, é flagrante a constante tentativa de criminalização do bairro em sua totalidade, como se fosse possível instituir uma dimensão existencial propensa a condutas desviantes e práticas de infração que seriam a causa última da interrupção prolongada de energia. Ao longo dos problemas que emergem na vida do bairro, estes modos de habitar a falta vão compondo um campo de representações sobre inscrições de vulnerabilidade e reinvenções de possibilidades de vida às margens do Estado.

As batidas policiais nos apartamentos do bairro vêm de encontro ao discurso contundente, que pude escutar repetidas vezes no falatório cotidiano dos moradores, proferido pela prefeita da cidade de Girona, Marta Madrenas, ao atribuir os problemas no fornecimento de energia ao alto nível de fraudes elétricas e ao cultivo de drogas. Em incontáveis entrevistas públicas, a prefeita definiu os cortes em função da criminalidade espraiada por aquele bairro. “– Delincuencia!” foi o adjetivo usado pela representante política para enquadrar a suposta conduta desviante dos moradores de Font de la Pólvora.

Certa vez uma moradora proferiu que a vida às escuras só entende quem a vive. Somente a experiência pode conferir a dimensão material de um cotidiano interrompido pelos cortes, pela ausência de tudo aquilo que deriva da eletricidade no espaço doméstico. A gestão do cuidado, da comida, da limpeza, do consumo de internet, de gestos banais de conforto e aconchego, ações corriqueiras, quase mecânicas, que ficam suspensas quando na falta do que se poderia esperar ou prever para o dia a dia de um lar. Amanhecer sem luz e ir dormir sem luz. É através desse intervalo capaz de cindir a vida ao meio que as manifestações dos moradores de Font de la Pólvora irrompem como rotas para contornar os implacáveis mecanismos de rebaixamento e precarização que circunscrevem aquele território e as pessoas que ali habitam.

Omissão, inação, descaso, abandono. São muitas as formas pelas quais os moradores nomeiam as “ausências ativas” (Fernandes, 2020) da administração pública. Da mesma maneira, foram muitas as manifestações públicas que transcorreram, movidas por essa força coletiva de transformar a realidade dada, impulsionadas pela necessidade de criar outras possibilidades para além da marginalização social. As inúmeras incursões por instâncias burocráticas, incluindo reuniões e plenárias, indicam um conjunto de pistas para “sobreviver na adversidade” (Hirata, 2018). De fato, os moradores aprendem a transitar por espaços de negociação, reivindicar medidas de acordo com os termos da lei, tecer comentários irônicos e sarcásticos, se revoltar quando possível, calar quando necessário. Essas pistas são compostas por um arranjo de universos embaralhados que permitem acionar diferentes repertórios de acordo com o contexto em jogo. Os cantos e gritos que ecoam pelas ruas pitoresca de Girona insistem sobre aquilo que parece inaudível aos ouvidos da cidade e, uma vez mais, os moradores repetem em coro: nós não somos delinquentes.

 

Referências bibliográficas:

FERNANDES, Camila. A força da ausência. A falta dos homens e do “Estado” na vida de mulheres moradoras de favela. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, Rio de Janeiro, n.36, pp. 206-230, dez. 2020.

HIRATA, Daniel. Sobreviver na adversidade: mercados e formas de vida. São Carlos: EdUFSCar, 2018.

 



[i] Professora substituta do Departamento de Ciências Sociais de Campos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutoranda e mestre no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

sexta-feira, 12 de maio de 2023

 

Livro O que é meu: memórias, estradas, caminhões e a politização da vida

 

Texto escrito por Flávia Mendes

 

José Henrique Bortoluci, professor de sociologia da FGV/SP,  lançou há poucas semanas o seu livro de estreia na literatura, O que é meu, publicado pela editora Fósforo. Antes mesmo de ser lançado no Brasil já era um sucesso lá fora, atraiu o interesse de editoras de 10 países, algo raríssimo entre os autores brasileiros. 

O livro narra as histórias do pai do autor, José Bortoluci, e as inúmeras viagens, aventuras e situações inusitadas que viveu como caminhoneiro desde os 22 anos, em meados dos anos 1960 cruzando o país de norte a sul. Também somos apresentados a história do próprio autor, que ascendeu socialmente graças aos estudos. Foi escrito a partir de seis entrevistas gravadas que o autor fez com seu pai após o diagnóstico de câncer, no final do ano de 2020, mas também de anotações no caderno, nota do celular, comentários e frases escutadas, das memórias afetivas do autor e do diário de sua mãe.

Escrevo entre duas devastações. Uma delas acomete o corpo do meu pai. A outra é coletiva, nacional. Nos últimos anos, fomos abatidos pelo macabro experimento político do grande mal que escancara os dentes para a pilha de mortos que nem mais conseguimos contar. (BORTOLUCI, 2023, p. 20).

 

O autor fala no livro que inicialmente pensou em fazer uma história social dos caminhoneiros, ou uma sociologia histórica da categoria e o pai seria um dos casos, mas desiste, assim como deixa de lado a preocupação com método e estilo, que em suas palavras, viraram “penduricalhos teóricos” (BERTOLUCI, 2023. P. 26) a partir da urgência imposta pelo diagnóstico de câncer do pai.

O pai de José Bortoluci fez o exercício de memória, de resgatar como era a vida na estrada e contar para o filho, que desde a infância tinha interesse pelas histórias vividas pelo pai, que chegava a ficar quarenta, cinquenta dias fora de casa. “O pai caminhoneiro visita a casa, a esposa e os filhos.” (BERTOLUCCI, 2023. p.9).  

 Enquanto a rotina daquela família acontecia em Jaú, estado de São Paulo, com a mãe que também trabalhava para sustentar a casa e os dois filhos, o pai estava cruzando o país pelas rodovias, ajudando a ocupar a Amazônia, projeto dos militares durante a ditadura que contribuiu para o processo de destruição da floresta, crescimento do garimpo ilegal e as inúmeras violências sofridas pelos povos indígenas.

O parque industrial do país se expandia e a demanda por novos modelos de caminhão era crescente, sobretudo nos anos do chamado “milagre econômico”, entre os finais dos anos 1960 e meados de 1970. Esse ilusório “milagre” teve o caminhão como sua condição de possibilidade em um país continental, quase desprovido de linhas férreas e dotado de um exíguo sistema fluvial para o transporte de cargas. (BORTOLUCI, 2023, p. 51).

 

José Henrique Bortoluci observa que a palavra ditadura pouco aparece na narrativa do pai. Quando o pai fala de militares, fala de sujeitos concretos que conheceu, alguém que conversou, que cruzou seu caminho, ou os soldados que levou na carroceria do seu caminhão no início dos anos 1970. O pouco que recorda e remete ao autoritarismo da época, é sobre o medo que existia de falar, inclusive de falar a palavra presidente. (BORTOLUCI, 2023, p. 84). Sobre a repressão, torturas e mortes o pai comenta: “a gente até ouvia falar de vez em quando, mas na estrada eu nunca vi nada disso”. (BORTOLUCI, 2023, p. 84). É interessante observar que ao mesmo tempo que não há referências críticas a ditadura e aos militares, também não há elogios, de modo que o autor chega a observar: me atrapalho quando tento revestir suas falas com o glossário do debate político ilustrado e progressista com que estou acostumado”. (BORTOLUCI, 2023, p. 83).

O pai do autor, Jaú, como era conhecido na estrada, foi um dos inúmeros trabalhadores que ajudaram na construção da Transamazônica, carregando no caminhão materiais para aquela obra, mas também o sonho de uma vida melhor.

Os ideais do empreendedorismo não são novidade entre as classes trabalhadoras brasileiras. O “sonho de não ter patrão” sempre andou de mãos dadas com o “sonho da casa própria”, e ambos impõem riscos para os trabalhadores: o fantasma da dívida, o flagelo dos juros, a precariedade das redes de proteção social, as sucessivas crises econômicas, chance real de perder tudo e não ter alternativa. Como autônomo, meu pai pagou por anos a previdência pública para conseguir se aposentar com apenas um salário mínimo, depois de décadas de trabalho fatigante.  (BORTOLUCI, 2023, p. 53).

 

O livro nos apresenta falas do José Bortoluci, chamado pelos familiares e na cidade onde mora de Didi, sobre a vida de caminhoneiro que teve, a saudade que sentia de casa, os amigos que fez na estrada, os medos, as aventuras de cruzar o país com cargas que tinham prazo para serem entregues. Ao mesmo tempo, o livro O que é meu mescla essas memórias com as análises do filho, sociólogo, que une a vida privada do pai às lembranças de sua infância, quando já notava as contradições entre o que escutava em casa e o que era contado na escola, assim como a análise sócio-política da vida do país. A politização da vida, daquilo que faz parte do seu cotidiano como pesquisador e professor, que atravessava a vida do seu pai, da sua família e de outros trabalhadores.  É esta relação entre o micro e o macro, entre as histórias de vida do pai e as desigualdades constitutivas do Brasil, que faz do livro uma obra que pode ser lida, estudada e pensada não apenas pelo viés da literatura, porque a escrita de José Bortoluci também é política. Ao narrar as histórias do pai, um senhor de quase oitenta anos que tem poucos registros de cartas, fotografias e documentos, é feito o exercício de dar voz a alguém que por sua condição de classe não teria a vida narrada.  

Como se narra a vida de um homem comum? Sou desafiado pelo silêncio das fontes, o apagamento de registros daqueles que constroem o mundo, que escrevem suas histórias com mãos e pés, com palavras ditas e cantadas, com suor e a pele marcada. (BERTOLUCI, 2023. P. 22)

 

O autor observa, as poucas representações artísticas sobre os caminhoneiros, apesar da importância que tiveram para a história do país, por exemplo, no período da ditadura militar e os ideais de ordem e progresso do período autoritário, mas também nos dias atuais.

Não se trata de uma questão exclusiva dessa categoria, claro. Essa carência de representações é sintoma das enormes limitações das elites culturais brasileiras em elaborarem imagens do povo que dialoguem com a vida real dos trabalhadores com seus universos culturais, suas estéticas e suas gramáticas políticas múltiplas. O “povo” geralmente aparece na arte do período como categoria abstrata, ou na fórmula repetida de um “povo pré-revolucionário”, aos moldes do marxismo da vez; ou então como manifestações de um “povo folclórico”, rural, romântico e pré-moderno. Na maioria dos casos, trabalhadores reais, em sua imensa diversidade, não correspondem em quase nada a esses modelos.  (BERTOLUCI, 2023. P. 54)

 

O distanciamento que o Bertoluci observa, entre o que a elite cultural e intelectual do país escreve, produz e pensa sobre a classe trabalhadora, é semelhante ao que alguns pesquisadores apontam como uma das problemáticas que fez com que apenas com o resultado da eleição presidencial de 2018 alguns percebessem o distanciamento que há entre a academia e a vida cotidiana da classe trabalhadora no Brasil. Entre uma grande parcela da população com seus recortes de classe, raça, gênero e religião, e o que se pensava sobre essas pessoas, o que é importante ou não para elas, como suas vidas são pensadas, vividas, sonhadas, e a relação desse cotidiano com a vida política do país. As frases do pai de  Bertoluci representam um modo de pensar que não é só dele, mas é representativo de uma parcela da sociedade brasileira, como por exemplo, a afirmação de que não importa quem venceu nas eleições “já que no outro dia a gente vai ter que trabalhar do mesmo jeito”. (BERTOLUCI, 2023. P. 42).

O livro embora conte parte da vida de um senhor de mais de oitenta anos, a partir da narrativa do filho, não se desconecta do presente, do que é repetição histórica na vida do Brasil, como a violência do Estado, a violência no campo, o desmatamento na Amazônia, a ditadura e o papel dos militares, a desigualdade social e como é dura e difícil a vida das classes trabalhadoras no nosso país.

 

Referências Bibliográficas

BORTOLUCI, José Henrique. O que é meu. São Paulo: Fósforo, 2023.